segunda-feira, 26 de junho de 2017

O Fantasma e o Vampiro - Capíluto VII

De súbito, Valentina sentiu-se engasgar, como se uma enguia tentasse descer garganta abaixo.  Estava prestes a tocar no manto da Morte, quando a Terrível Dama a empurrou para longe e deu um terrível grito!

- Malditaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! – urrou a Ceifadora, revelando sob o manto negro sua pavorosa face de caveira.

Valentina sentiu cada silaba daquele esconjuro penetrar em seu corpo e destruir seu espírito. Naquele momento, soube que a essência mais preciosa a abandonara, deixando seu interior desolado, vazio, escuro, frio. Seu corpo, antes templo de todas as virtudes, tornou-se santuário em ruínas, de portas escancaradas para o profano. A Morte se retirou em uma marcha decrépita, lançando mil sortilégios ritmados pelo ranger sinistro de ossos. Valentina sentiu-se em grande pecado... o mais desprezível de todos os seres. Quis clamar pelo divino nome, mas ao fazê-lo sentiu a boca encher-se de sangue e a visão de todos os mártires passou diante de si. Eles a encaravam com olhos inquisidores, enquanto espumavam de dor.  A moça lamentava, chorava e puxava os próprios cabelos.

- Perdoem-me! Perdoem-me! Fiz tudo por amor! Perdoem-me! - Gritava a plenos pulmões, olhando para o firmamento flamejante, que deveria ser o céu.

Quanto mais clamava, mais horrendas as visões se tornavam. No meio de tamanha angústia e sofrimento, Valentina notou a presença de um homem assustado que parecia fugir do mundo inteiro. Ele escondia o rosto sofrido na orla de suas vestes maltrapilhas; A moça segurou-lhe o braço antes que fugisse de sua presença.

- Por favor, me ajude! Não vá embora, senhor! Não me deixe aqui sem de nada saber! É este o inferno, ou será um lugar pior?!
- Inferno?! Também procuro o caminho para lá! Avise-me se encontrar! - retrucou o homem, esquivando-se nas trevas.
- Por favor, não se vá! Ajude-me! - Valentina colocou-se na frente o homem atordoado, impedindo que seguisse seu caminho.

Ao encará-la melhor, os olhos dele se acenderam.

- Vejo que também és maldita! Tu tens o sinal...Tu também tens o sinal! – Ele a analisava num misto de esperança e loucura, enquanto tamborilava com os dedos na própria testa. – Tu és maldita, assim como eu!

Valentina procurou em seu próprio corpo pelo sinal de que o homem falara, e nada compreendeu.

- Não compreendo! Qual a sua graça, senhor?!
- Filho Mau... Vagabundo... Maldito... Odiado dos Homens... Fratricida... Filho desviado de Deus... Maldito... Caim... Me chamo Caim... Aquele que vaga nas sombras... Maldito – o homem cuspia injúrias contra si, sem que pudesse controlar a língua ou os tiques.

Valentina foi ao chão ao reconhecer a abominável identidade daquele homem. Aquele "personagem" assombrara seu imaginário infantil desde que a introduziram nos preceitos da crença. E lá estava ela, no mesmo lado da balança em que o primeiro monstro da humanidade.

- Se pequei foi por amor! Deus terá misericórdia de mim! Não tirei vida alguma, além da minha! – gritou Valentina aos prantos, na expectativa de que aquele homem fosse embora e de alguma forma levasse sua iniqüidade – Eu não matei ninguém!
- Ainda não derramaste sangue, mas logo verás que nem o sangue do mundo inteiro saciará sua fome! Maldita! Tu também és maldita!

De repente, Valentina se viu a golpear o homem, e quanto mais o feria, mais ele a amaldiçoava. Ela o esmurrava na face com os punhos fechados, e cortes se abriam em todos os lugares. Tanto lhe bateu, que o rosto virou uma massa inchada e irreconhecível. O sangue jorrava abundante pelos cortes, inundando-lhe os olhos e a boca. O homem apenas ria, enquanto o líquido vermelho espumava em sua boca, tingindo seus dentes podres de vivo escarlate.

Num lampejo de lucidez, Valentina soube que perderia o controle de si. No instante seguinte, já não podia conter sua raiva e aquela força descomunal que adquirira. Não podia mais suportar aquela fome insana que crescia em cada célula de seu corpo. A vermelhidão do sangue a convidava como o mais nobre e excelente vinho. A carne ferida a atraia como o mais suculento manjar. Sem ao menos hesitar, devorou a face inteira do homem, que “morreu” sorrindo.

Ao sentir-se saciada, vislumbrou o cenário visceral ao seu redor. Pedaços de carne humana, couro cabeludo, dentes e ossos menores espalhados por toda parte, inclusive sobre si. Tocou o próprio rosto e sentiu que adquirira as feições de uma besta demoníaca. Os caninos pontiagudos rompiam-lhe a gengiva causando imensa dor. Olhou para as próprias mãos e vestes, cobertas com o sangue de sua iniquidade. Olhou para dentro de si, e soube que jamais seria a mesma novamente. O mundo girou, a vista se anuviou e ela desfaleceu.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Glória moribunda

(...)
" Oh! riamos da vida! tudo mente!
Os meus versos gotejam de ironias!
Esse mundo sem fé merece prantos?"
(...)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo VI

Valentina despertou na floresta com a impressão de ouvir asas batendo aos seus ouvidos. Estava certa de que era um morcego, pois podia ouvir o seu trissar estridente.  Espantou a criatura com as mãos e levantou-se assustada. Seu vestido estava imundo e os longos cabelos repletos de folhas secas. Não sabia por quanto tempo ou dias estivera na mata. Estava completamente confusa, mas constatou que o sol se poria em breve a julgar pelas nuances de luz que cortavam a folhagem. Pouco a pouco começou a recordar as revelações que Arthur fizera, e seu rosto foi se contorcendo até explodir em copioso pranto.  Estava certa de que aquela dor dilaceraria seu peito e todo seu corpo. Era tão intensa que podia senti-la fisicamente... Uma dor que a fez gritar até sentir que os pulmões explodiriam e as cordas vocais rasgariam. Um pranto tão doído que tossia e engasgava como que vítima do mais nocivo veneno: o rancor, que se espalhava veloz por cada uma de suas veias. Naquele momento, as preciosas virtudes abandonaram o casto coração de Valentina, assim como o sol, que se retirou e deu lugar a uma treva profunda... E tão escuro ficou que nada mais podia ver.

Cega de ódio e destruída por dentro, seguiu pela mata guiada por uma intuição obscura e desconhecida. Como que por encanto, o véu negro da escuridão se abriu e ela se viu novamente no vilarejo. Tudo estava envolto daquela estranha neblina que vinha se manifestando nos últimos tempos e mal podia enxergar um metro à sua frente.  Valentina seguiu errante pelo cenário pálido e fantasmagórico, até perceber que estava na ponte. O vento soprava gélido, balançando as candeias de um lado para outro.  A chama das lamparinas tremulava num tom sobrenatural de azul, como pequenas fadas em combustão a agonizar. O crepitar sinistro era como gemidos de dor, que se propagavam no vento em funesta sinfonia. Pouco a frente, foi se formando a silhueta sombria de um cavalheiro, que se tornava cada vez mais familiar. Ele se virou, e seus dentes salientes pareceram brilhar quando sorriu. Ela conhecia bem aquele riso torto e maquiavélico. Era Nikolai, que (como sempre) parecia esperá-la.

Ele abriu os braços e, por algum motivo inexplicável, Valentina sentiu-se impelida a abrigar-se em seus braços. Nikolai tomou-a por inteiro dentro de sua capa. Seu peito era rígido como mármore e frio como uma sepultura. Ela não sentiu conforto algum, mas sim o pavor inerte de um animal indefeso nas garras de uma fera predadora. No entanto, contrariando todos os seus instintos, ela apegou-se ainda mais àquela sensação, mergulhando profundamente naquele abraço.

-Se realmente me amas, mate-me, por favor! Eu não posso viver neste mundo nefasto sabendo o que sei! – disse entre lágrimas e soluços.
- Então queres mesmo morrer?! – Nikolai perguntou quase sorrindo, enquanto afagava os cabelos de Valentina.
- Com toda minha alma, sim! É o que desejo. Prometo rogar aos céus que não lhe imputem minha morte por crime!
- Querida, não te perturbes com este compromisso. Estas tolices de céu ou inferno há muito não turvam meu espírito e nem regram meus atos. Não te ofendas, mas sequer penso em tais coisas. Todavia, sou-te grato, pois bom é o teu intento.
- Se fôlego tivesse para viver mais um dia, juro que me empenharia em tua salvação. Chamar-te-ia amigo, e destituiria teus pensamentos de tais heresias.
- A única salvação que preciso é do inferno de não ter você... Em vez de palavras santas, converta teu precioso fôlego em beijos e eu me converterei a ti com crença jamais vista.
- Por favor, não me galanteie. Não pague minhas puras palavras com estas outras cheias de pecado travestido de amor.  
- Oras! Julgava-me livre, mas vejo que já me converti. Tu mandas, e eu servilmente calo.
- Então, meu amigo e servo, mate-me. De algum lugar tua santa irá interceder por tua alma. Peço-te apenas que conserves minha beleza... E que sejas rápido.
- Depois de morta, estarás mais bela que nunca. Mas confesso que não posso imaginar maior beleza que esta que meus olhos vêem.
- Usarás arma de fogo ou coisa assim?
- Admiro tua bravura, mas será mais fácil se não souber. Feche os olhos, sim?

Valentina olhou em volta, em breve despedida. Soube que sofreria por suas irmãs, em especial a caçula. Por seu adorado gato Leopoldus também. Mas não poderia continuar entre os poucos que amava e ao mesmo tempo viver sob o teto dos inimigos de sua alma.

Obedeceu a instrução do cavalheiro e deixou-se guiar às cegas até o parapeito da ponte. Estremeceu de frio e medo, mas desta vez não seria covarde. Abraçaria a Morte, qualquer que fosse sua aparência... E estando de olhos fechados, era como se o Nikolai fosse a própria Morte...

O vento pareceu adquirir consistência, deslizando em espirais por seu pescoço, braços, tornozelos, invadindo suas vestes. Uma atmosfera hostil a envolveu por inteiro, e ela se sentia como um animal acuado, que pressente desgraças antes que aconteçam. Era como se Nikolai a estivesse rodeando, como um lobo em volta da presa.  E com ele, uma matilha inteira formada de ar. A sensação era de que a ameaça vinha de todos os lados e ela não ousou abrir os olhos. Não conseguia. Estava petrificada e seu corpo não obedecia aos instintos de sobrevivência.
Valentina sentiu o corpo inteiro de Nikolai contra suas costas. Cada músculo, cada membro, cada contorno, numa proximidade exagerada e íntima. As mãos lascivas envolveram sua cintura e prenderam-na com volúpia.  Ele pôs a palma sobre sua têmpora, e sem encontrar qualquer resistência, moveu-lhe o rosto, deixando o pescoço da moça completamente exposto. De olhos fechados, ela sentiu o toque do nariz grego sobre sua pele a absorver o seu cheiro, os lábios frios a beijar e depois lamber sua garganta. Sentiu-se ultrajada, vulnerável, impotente. Mas ao mesmo tempo, como que possuída por um encantamento imundo, desejou que aquilo se tornasse mais intenso, que ele enterrasse o rosto de vez em seu pescoço, em seus cabelos e que lhe arrancasse a carne.  E assim o fez. Ele a mordera! Aquele homem perverso e libertino cravara os dentes em seu pescoço com a violência de uma fera. Após certa resistência, a pele rompeu-se sob os caninos pontiagudos e mortais de Nikolai. O sangue abandonava seu corpo em jatos na intensidade imposta por aquela boca vil, que sugava ininterruptamente. Era como se seu corpo não mais existisse, e seus membros fossem completamente feitos de dor.  O único som que conseguia emitir era um abafado arranhar de cordas vocais, e foi emudecendo na medida em que enfraquecia. Aos poucos a dor cedia, e sentia-se leve como uma pluma. Seu corpo estava arqueado de uma forma que causaria desconforto a qualquer um que estivesse lúcido. No entanto, ela sequer sabia em que posição estava e perdera completamente o senso de direção. Todavia, sabia que as mãos de Nikolai ainda a apoiavam. O local onde ele a mordera estava úmido, e presumiu que fosse de saliva ou sangue. Sentia o estalar dos lábios dele em seu pescoço. Ele agora a beijava, como se não fosse mais a fera de tempos antes.

Seus últimos pensamentos foram de arrependimento, por permitir que aqueles lábios estranhos a tocassem. Sentiu como se chorasse, e um terrível frio a invadiu. Por fim, seu corpo se debateu. Eram os espasmos da Morte. Ela estendia as mãos esqueléticas em sua direção, e embora não pudesse ver seu rosto descarnado, sentiu-se amparada pela senhora sombria.  Valentina abraçou a Morte e sentiu um inesperado conforto ao ser envolvida por seu manto. 

terça-feira, 30 de maio de 2017

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo V

Os dias que se seguiram foram rotineiros. Valentina ia ao cemitério, trocava juras de amor com o Fantasma. Permaneceu, inclusive, no propósito de morrer. Retornava para casa pelos mais sombrios e perigosos caminhos. A sensação de ser observada não cessou. Todavia, o máximo que lhe aconteceu foi ser atacada por dois ou três morcegos que tiravam rasantes próximos à ponte.
Cruzava com o cavalheiro frequentemente, e este insistia em levá-la até sua casa (contra sua vontade, obviamente). Descobriu que seu nome era Nikolai Slavomir, e que herdara um castelo pouco afastado da cidade. Fora isso, o cavalheiro nada mais revelou sobre si. No entanto, seu sotaque pesado e a pronúncia forte do “r” indicavam que ele era de terras bem distantes. Talvez de outro continente.
- Tens negócios por aqui? Ou estás empregando tuas noites a “seguir-me”? – Perguntou Valentina.
- Se continuo nesse tedioso vilarejo, é por ti. – Nikolai parou à frente da moça, interrompendo a caminhada - É chegada a hora de saberes que gosto de ti. Que te amo.
- Pois bem. Saibas que pretendo morrer. E isto, para juntar-me a meu amor, o ÚNICO de minha vida. – Valentina respondeu com veemência.
Os olhos azuis de Nikolai encheram-se de mágoa. Valentina apiedou-se e tentou amenizar suas últimas palavras:
- Não deverias desperdiçar teu tempo a tentar conquistar um coração selado, como o meu.
- Minha querida, tenho até o último de teus dias para tentar. E se isto não for suficiente, talvez mais: a eternidade.
- Agora blasfemas ao proferir tais crenças.
- Hahahaha! Donzelas de teu tipo me comprazem: destemidas, porém tolas.
- Isto foi rude! – exclamou, boquiaberta. Era a primeira vez que aquele cavalheiro faltava-lhe com o respeito. - Peço que não me acompanhes mais. Sei o caminho de casa, assim como posso perfeitamente me defender. – pegou uma pedra e ergueu-a de forma ameaçadora, sugerindo que a usaria caso necessário.
Nikolai sumiu como que por encanto, deixando apenas seu riso sinistro no breu.

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Na noite seguinte Valentina revelou a Klaus a existência de Nikolai. Relatou todo ocorrido e lamentou ter se deixado acompanhar por um desconhecido. E enquanto confessava, deu-se conta do quanto aquilo fora imprudente e inapropriado. O noivo pediu que não fosse mais ao cemitério, pelo menos por alguns dias. Em vão.
- Virei aqui todos os dias, até mudar-me definitivamente para teu túmulo.
- Ainda com essas idéias tolas?!
- Também me tomas por tola?! Trata-se de nosso amor! – profundamente magoada, saiu às pressas de sua presença, pisando sobre flores e sepulturas.
Para aumentar seu desgosto, mal saiu do cemitério e lá estava Nikolai, sentado em um banco com ar nobre e riso cínico. Valentina tentou ignorá-lo.
- Estás atrapalhando meu propósito... Enquanto estiver perto, a Morte não virá. - suspirou, ao perceber que Nikolai caminhava a seu lado.
- Estás enganada. Quando ela vier, não me colocarei entre vós. Não te livrarei. É uma promessa.
- Mas não desejo sua companhia. Isto já causou problemas demais entre meu noivo e eu.
- Diga a seu noivo que duelemos então. O vencedor ganhará teu coração.
Valentina começava a por em questão a maturidade daquele cavalheiro. Não se sentia mais propensa a levá-lo a sério, ou irritar-se com ele. Seria inútil.
- Meu noivo e você jamais poderiam duelar...
- Diga-me, Valentina. O que poderia fazer para ganhar teu amor?
- Não há nada que possa fazer para tal, senhor. Se quiseres ao menos minha estima, apenas deixe-me seguir meu caminho. A única companhia que desejo nesta triste noite, é a da Ceifadora das almas.
- Querida, és tão bela quanto sombria. – riu Nikolai. – Providenciarei este encontro.
Como de costume, Nikolai pareceu sumir por trás de sua capa negra. Valentina estremeceu.
A atmosfera estava úmida, cheia de chuva disfarçada. E seu corpo era como aquele ar: completamente feito de lágrimas contidas. Não demoraria até precipitar por inteiro, e escorrer pelo chão, até sumir... Ao chegar na ponte, sentou-se no parapeito e pôs-se a observar a agitação que o sereno provocava na superfície do lago. 
- Perdoem-me os céus por desejar que mãos de vento me lancem nas profundezas do córrego, e que nada além de minha alma torne a subir!
De súbito, foi surpreendida por um crescente vozerio. Era um grupo de rapazes, que se aproximava. Dentre os três beberrões, estava seu pretendente Arthur. O rapaz, terrivelmente debilitado pelo ópio, usava os ombros amigos como muletas.
- Valentina! És tu de verdade, ou um anjo mal disfarçado?
A moça sobressaltada escondeu o rosto entre os cabelos.
- Amigos, sois maus! Maldita seja a mistura que me serviram por álcool, pois agora até em delírio me vejo diante desta mulher! Não basta ter de me casar com ela? Vá embora Valentina! Em meu peito só há lugar para Barbara.
Aquilo a surpreendeu, pois imaginava que o filho do conde a amasse.
- Arthur, não é fantasma ou demônio. É sua noiva! – disse o mais sóbrio. – Mostre algum respeito!
- Tu sim, és mau, Arthur! És um ingrato! Quem, neste vilarejo miserável, não desejaria passar a noite sobre os seios de Valentina?!– disse, entre soluços o outro amigo, o mais bêbado. E depois explodiu em ruidoso riso.
- Perdoe-me Valentina! É que não a amo! Eu amo Bárbara! No entanto, casar-me-ei contigo, pois é meu dever... Tu sabes, somos ricos... – Arthur desvencilhou-se dos amigos e caiu sobre os braços de Valentina, que o amparou. O rapaz continuou, em tom de confidência – Pro inferno teu dinheiro e o meu... Mas teu noivo morreu... Não quero que Barbara seja morta também! Apesar de tudo, saibas que não te amo... Nunca te amarei... Desculpe!
Um terrível tremor se apoderou de Valentina. A moça quase tombou ao decifrar o significado daquelas palavras. O amigo mais sóbrio antecipou-se para apoiá-la, enquanto Arthur foi ao chão.
- O que ele está dizendo? – Valentina jogou-se sobre Arthur e segurou-lhe pelas golas. Os olhos da moça já emanavam em uma torrente de lágrimas.
- Peço que o perdoe, pois não sabe o que diz. – argumentou o amigo sóbrio.
Valentina livrou-se dos braços protetores e sacudiu Arthur para arrancar a verdade em meio aos soluços ébrios do rapaz.
- Se tu sabes algo sobre a morte de Klaus, conte-me agora! Exijo-te! Suplico-te!
- Solte-me! Se aquela a quem eu amo nos surpreender assim, estará tudo acabado... Tudo. – protestou Arthur, porém sem forças para livrar-se de Valentina.
- Se disseres o que sabes, juro que não mais me verás. Não precisarás casar comigo, pois não estarei mais aqui entre vós. Suplico-te que fale!
- Jure... – respondeu Arthur, e foi ao chão.
- Juro pela saúde de meu pai, pela vida de minha mãe!
- Terás de jurar por outros... Depois que eu falar, vai desejar aos teus pais algo mais terrível que a morte.
Aquelas palavras carregadas de álcool faziam sentido, por mais doloroso que fosse.
- Jure Valentina...
- Juro!
- Por quem tu juras?
- Por Deus, pelo rei, pelo eterno descanso de meu falecido noivo! Fale!
- Não o leve a sério. – interviu o amigo sóbrio. - Está bêbado, não vês? Delira.
- Eu não estou bêbado... Deixe-me falar! – empurrou o amigo, e continuou sem meias palavras - Seu noivo está morto porque nossos pais assim o quiseram.
- O que estás dizendo???
- Isto mesmo, Valentina! Foi uma emboscada... Mas não matarão Bárbara. Antes eu mato meu pai, o teu, o padre, até mesmo o diabo!

Valentina tombou para o lado, tão pavorosa era aquela informação. Ao levantar-se, nada mais pôde fazer, além de correr, correr, correr. Embrenhou-se na parte mais densa do bosque, de forma que não soube quando o dia raiou. Deitou-se catatônica entre as raízes de uma árvore centenária. A Mãe Natureza apiedou-se de seu choro, de forma que nem mesmo uma formiga a molestou.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Adélia

Conto dedicado à minha amiga Lane... :) Para nossa possível coletânea sobre mulheres... 

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ADÉLIA

O calor estava de matar naquela tarde abafada de outubro. A salinha cor de areia decorada com cactos artificiais era como a representação de um deserto. Adélia jazia imóvel no sofá, imersa em seu deserto pessoal... Na vastidão inóspita de sua psiquê... Numa espécie agonia solitária e quieta... A respiração escapava compassada pela moldura rubra de seus lábios. A pele formigava em contato com estofado barato e úmido de transpiração. O decote entreaberto mostrava uma quantidade generosa de suor represado entre os seios. O tempo, por sua vez, também parecia confinado entre os ponteiros do relógio de parede quebrado.

Por fim, chaves giraram as engrenagens da fechadura numa seqüência bem peculiar de duas voltas e meia, seguida de um solavanco. A porta se abriu e os sinos de alerta tilintaram. Victor entrou e deparou-se com a figura feminina em seu sofá. Adélia lembrava as musas febris que inspiraram poetas ao longo dos séculos. Mas a fragilidade de suas feições contrastava com as roupas negras e os impenetráveis óculos escuros.

- Ora, ora. A bela adormecida não vai acordar? – disse irônico, enquanto contornava a orla rendada do sutiã de Adélia com o dedo indicador.
- Não estou dormindo, Victor. – respondeu Adélia, sem se mover um milímetro sequer.
- Pois pra mim, pareceu que você estava dormindo. – queixou-se Victor, afastando-se subitamente. - Se fosse a polícia ou um dos Niners, estaríamos fodidos, porra. Você precisa manter os olhos abertos.
- Se fosse qualquer pessoa além de você, eu saberia. Meus ouvidos estavam bem atentos. Todos os meus sentidos são bem eficientes.
- Claro que são... Claro! – bufou, com uma expressão confusa de riso e raiva... Como foi o dia? 
- Poucos clientes. Livre-se dessa porcaria. Esse bagulho não presta, Victor. Só vendi pra viciada do primeiro andar. E tive que dar um desconto.
- Porra! – esbravejou Victor, jogando contra a parede um dos poucos vasinhos decorativos que restavam. - Não vamos conseguir pagar os Niners até o fim da semana!

Adélia se levantou como que na recuperação súbita de um coma. Enxugou o suor da testa e prendeu os longos cabelos negros em um coque alto.

- Se você não consertar esse ventilador, não sobreviveremos até lá de uma forma ou de outra.  – disse a moça, dirigindo-se à porta.
- Aonde você vai? – perguntou, com os braços abertos em fúria.
- Vou para casa. – respondeu Adélia, enquanto acendia um cigarro. – Não agüento mais esse calor. Já embalei tudo. Fiz seu serviço e o meu. Chame alguém pra ajudá-lo com as vendas... Se é que mais alguém vai querer essa porcaria batizada.

Victor colocou-se diante da porta, impedindo que a moça saísse.

- Pra casa?! Você nunca chamou aquela porcaria de casa. Mal pisa lá. Porque isso agora? Tá me enrolando, Adélia?! Tá querendo me fazer de otário?! – o rapaz vociferava bem próximo de seu rosto, impregnando tudo com o hálito impregnado de álcool, cocaína e cigarros.

Àquela altura, Adélia mal podia lembrar que um dia o amara. Que entregara a melhor parte de sua vida a um belo e amável Victor, e que em algum momento foram o mais feliz casal do mundo.

- Aqui está um inferno! Preciso sair deste buraco nem que seja por uma noite! – e sua voz era quase uma súplica.

A mão de Victor estalou ruidosamente na face direita da moça, que foi ao chão. De olhos enxutos, Adélia recolheu os óculos quebrados e se levantou em silêncio.

- Olha o que você me fez fazer! Olha só! – Victor iniciou uma marcha nervosa na sala, em um misto de arrependimento e raiva. – Porra... Por favor, me perdoe. Fique comigo, Adélia. Não sei mais o que fazer! Os Niners querem tirar minha pele. Sem você ao meu lado, eu não consigo. Por favor, fique!
Ele se reaproximou e prendeu o rosto da moça entre suas mãos e beijou seus lábios cerrados.
- Pare, Victor. Por favor, pare.

Adélia tentou se desvencilhar, mas as mãos do rapaz já percorriam o interior de sua calça jeans em apressada busca por resquícios de paixão. No minuto seguinte ele estava dentro dela, num coito incômodo, desajeitado, seco. Ela cedeu. Cansara de resistir.

Em tempos passados, ela teria chorado copiosamente pela agressão sofrida.

Um dia atrás, ela teria apontado uma arma para ele e diria que se a agredisse novamente, estouraria seus miolos.

Mas não naquela tarde quente e abafada de outubro.

Ao fim do ato, ela abotoou a calça e disse a Victor que ainda assim iria para casa.

- Que seja. Faça o que quiser. – respondeu sem olhá-la nos olhos. Victor sentia vergonha de si em seus breves momentos de lucidez.

Ao sair do prédio abafado, Adélia respirou aliviada. Os últimos raios de sol se retiravam e uma brisa gelada começava a soprar contra sua pele. Caminhou lentamente rumo à casa de seus pais, enquanto fumava seu último Marlboro. A fumaça saia de sua boca lentamente – não como o bafejar de um dragão furioso, mas como um sopro sutil a atravessar o diastema entre seus dentes.

Era agradável estar do lado de fora depois de semanas à fio trancafiada no apartamento velho e decadente que dividia com Victor. No início, ali fora uma espécie de refúgio. Uma miniatura de Éden, onde desfrutavam da presença sempre nua, um do outro. Eles se amaram ao extremo... A ponto de esquecer que o mundo era mundo. Entre tórridos beijos e profundos suspiros, uma dose ou outra, um quarto, uma aplicação. Entre conversas mais profundas que o oceano, um rasgo pra acelerar... Entre uma palavra torta, uma acusação, alguns miligramas disso ou daquilo para acalmar... Pra esquecer que o mundo continuava sendo mundo, com sua atraente porta escancarada para a perdição... Como uma boca gulosa que nunca se farta de tragar as almas dos que sonham...

- Que inferno! – Bufou, ao perceber que a sensação prazerosa que sentira há pouco estava aos poucos se esvaindo. A realidade a perseguia como um demônio opressor, que impunha as mãos sobre sua cabeça e turvava seus pensamentos. Lá estava ela, novamente perguntando a si mesma se de fato vivenciara as douradas lembranças as quais se apegava para continuar vivendo, ou se tudo não passara de uma ilusão... Um belo e saudoso simulacro criado por todas as substâncias que ingeriram juntos, e que, por algum motivo, não surtiam mais o efeito esperado. Não sabia mais o que pensar. As drogas eram melhores antigamente? Ou seu relacionamento estava na mais obscura fossa? Ou talvez sua vida inteira tenha se resumido a uma sequência de abismos, e abusos, derrotas e ilusões. Sentiu-se novamente a sufocar. As pernas falharam tombou de joelhos. Não havia lua, nem brisa, nem asfalto, casas, ou prédios, ou nada... Estava de volta ao seu deserto sem fim, mas não podia ver... Estava tão escuro... Sentia a língua enrolando no céu da boca e aos poucos ficava cada vez mais difícil de respirar.

Quando estava prestes a expirar, ouviu bem ao longe uma sequência de sons que era bem peculiar... Chaves girando numa fechadura, duas voltas e meia, seguida de um solavanco... Uma porta se abrindo e sinos tilintando... Como que há milhas de distância dali. Uma voz gritava seu nome e ela soube que era de Victor. Ela tentava respondê-lo e pedir-lhe ajuda, mas era em vão, pois seus gritos saiam como um engasgo feio e pastoso. Logo mais, sentiu seu corpo estremecer inteiro e em um relance pôde ver o rosto desesperado de seu amado bem próximo do seu. Ele parecia gritar a plenos pulmões, mas logo suas feições se tornaram um vulto...um borrão... e tudo escureceu novamente.

Quando o socorro chegou, deparou-se com duas emergências em vez de uma. Adélia jazia imóvel sobre o sofá de onde nunca saíra. No chão, o corpo de Victor ainda quente sobre uma poça do próprio sangue. Separaram-lhe as mãos e rabiscaram o laudo sem grande perícia: "overdose irreversível", "suicídio por arma de fogo". O relógio ainda marcava 11:11, e aqueles números finalmente fizeram sentido: era tarde demais.  




quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Discurso

Quando afirmas que pretendo ser um indivíduo deveras excelente, na verdade revelas tua opinião mais íntima sobre mim... Destilas em tua boca amarga a admiração secreta que te turva os pensamentos e impede de gozar teus dias. Se soubesses a soma dos minutos que gastei a refletir sobre teu proceder, entenderia que teus pensamentos não são recíprocos. Poupa teu fôlego. Recolhe tua língua. Vive e deixa-me viver.

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Obs.: Não é pra ninguém específico... É apenas um discurso que eu usaria se tivesse nascido há dois séculos e me importasse com o que alguém pensa de mim kkkk

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Os gigantes e as formigas

Às vezes analogias não passam de figuras de linguagem que utilizamos para consolidar argumentos  falaciosos. Mas às vezes elas são como perfeitos punhais que rasgam o véu de ignorância que cobre nossos olhos. Tenho uma analogia que, além fundamentada, ainda fez-me sentir um irremediável lixo. Ou pior: uma praga, que consome tudo que é vivo e que não tem tantas alternativas razoáveis para sua vil existência. Explicarei enquanto agonizo.

Em minhas andanças em busca de um pedaço de terra para chamar de lar, notei o quão rápido a civilização avançou por espaços antes "desabitados". Há 10 anos, eu morava na saída da cidade. Hoje não posso mais afirmar tal coisa, pois tudo cresceu muito para todas as direções. Onde havia matas, lagoas e outros ecossistemas intocados, agora há uma panificadora, uma academia, condomínios e casas, muitas casas. O que era estrada, agora é via de acesso para muitas moradas.
A impressão que dá é de que tem acontecido um grande progresso, e de que a cidade está crescendo. Muitos até se alegram com isso. Esquecem-se de que os lugares que parecem inabitados é o lar de muitos seres vivos (como nós). Ao avançarmos sobre essas terras, estamos matando e desabrigando pássaros, anfíbios, lagartos, soins, jacarés, capivaras e milhares de outras criaturas. Os que não morrem, migram para terras vizinhas que logo menos serão devastadas por nós, seres humanos, detentores de plenos poderes e donos do mundo.

A formiga ergue verdadeiras civilizações embaixo da terra. O passarinho abriga sua família em aconchegantes ninhos. Mas nós humanos somos como gigantes que sequer atentam para a existência dos outros seres e saímos pisoteando, derrubando, queimando e construindo sobre os lares dos outros seres. Como se tudo no planeta existisse em nossa função.

Às vezes imagino como seria se outros seres gigantes surgissem na terra e, para eles, nós fôssemos pequenos como formigas. Eles viriam com seus pés gigantes e pisariam nossas casas e famílias como se não existíssemos ou fossemos insignificantes demais para desviarem seu caminho. Eles nos desapropriariam e construiriam suas casas sobre as nossas como se tivéssemos menos direito de existir que eles.

Também imagino como seria se o governo simplesmente nos mandasse embora de "nossas terras" ou matasse quem resistisse em ficar. De certo haveria um grande reboliço no mundo. Porque sabemos falar. Porque sabemos criar e manusear armas. Mas se fossem gigantes, definitivamente não teríamos alternativas a não ser fugir até que a morte nos encontrasse. Nossos gritos de formiga não seriam ouvidos. Os titãs prevaleceriam. Ergueriam seus lares felizes sobre nosso sangue sem remorso algum. E a mídia titânica publicaria fotografias de suas famílias sorridentes e incentivaria outros gigantes a comprar mais terras que, na verdade, nunca pertenceram a alguém, mas sim a todos.
Não tem jeito. O mundo vai acabar. E nós humanos sofreremos por último. Só não sei se quem sofre por último, sofre mais.


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Sim, estou numa fase ativista e existencial.

ETERNA MÁGOA – poema de Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se a...