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sexta-feira, 2 de junho de 2017

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo VI

Valentina despertou na floresta com a impressão de ouvir asas batendo aos seus ouvidos. Estava certa de que era um morcego, pois podia ouvir o seu trissar estridente.  Espantou a criatura com as mãos e levantou-se assustada. Seu vestido estava imundo e os longos cabelos repletos de folhas secas. Não sabia por quanto tempo ou dias estivera na mata. Estava completamente confusa, mas constatou que o sol se poria em breve a julgar pelas nuances de luz que cortavam a folhagem. Pouco a pouco começou a recordar as revelações que Arthur fizera, e seu rosto foi se contorcendo até explodir em copioso pranto.  Estava certa de que aquela dor dilaceraria seu peito e todo seu corpo. Era tão intensa que podia senti-la fisicamente... Uma dor que a fez gritar até sentir que os pulmões explodiriam e as cordas vocais rasgariam. Um pranto tão doído que tossia e engasgava como que vítima do mais nocivo veneno: o rancor, que se espalhava veloz por cada uma de suas veias. Naquele momento, as preciosas virtudes abandonaram o casto coração de Valentina, assim como o sol, que se retirou e deu lugar a uma treva profunda... E tão escuro ficou que nada mais podia ver.

Cega de ódio e destruída por dentro, seguiu pela mata guiada por uma intuição obscura e desconhecida. Como que por encanto, o véu negro da escuridão se abriu e ela se viu novamente no vilarejo. Tudo estava envolto daquela estranha neblina que vinha se manifestando nos últimos tempos e mal podia enxergar um metro à sua frente.  Valentina seguiu errante pelo cenário pálido e fantasmagórico, até perceber que estava na ponte. O vento soprava gélido, balançando as candeias de um lado para outro.  A chama das lamparinas tremulava num tom sobrenatural de azul, como pequenas fadas em combustão a agonizar. O crepitar sinistro era como gemidos de dor, que se propagavam no vento em funesta sinfonia. Pouco a frente, foi se formando a silhueta sombria de um cavalheiro, que se tornava cada vez mais familiar. Ele se virou, e seus dentes salientes pareceram brilhar quando sorriu. Ela conhecia bem aquele riso torto e maquiavélico. Era Nikolai, que (como sempre) parecia esperá-la.

Ele abriu os braços e, por algum motivo inexplicável, Valentina sentiu-se impelida a abrigar-se em seus braços. Nikolai tomou-a por inteiro dentro de sua capa. Seu peito era rígido como mármore e frio como uma sepultura. Ela não sentiu conforto algum, mas sim o pavor inerte de um animal indefeso nas garras de uma fera predadora. No entanto, contrariando todos os seus instintos, ela apegou-se ainda mais àquela sensação, mergulhando profundamente naquele abraço.

-Se realmente me amas, mate-me, por favor! Eu não posso viver neste mundo nefasto sabendo o que sei! – disse entre lágrimas e soluços.
- Então queres mesmo morrer?! – Nikolai perguntou quase sorrindo, enquanto afagava os cabelos de Valentina.
- Com toda minha alma, sim! É o que desejo. Prometo rogar aos céus que não lhe imputem minha morte por crime!
- Querida, não te perturbes com este compromisso. Estas tolices de céu ou inferno há muito não turvam meu espírito e nem regram meus atos. Não te ofendas, mas sequer penso em tais coisas. Todavia, sou-te grato, pois bom é o teu intento.
- Se fôlego tivesse para viver mais um dia, juro que me empenharia em tua salvação. Chamar-te-ia amigo, e destituiria teus pensamentos de tais heresias.
- A única salvação que preciso é do inferno de não ter você... Em vez de palavras santas, converta teu precioso fôlego em beijos e eu me converterei a ti com crença jamais vista.
- Por favor, não me galanteie. Não pague minhas puras palavras com estas outras cheias de pecado travestido de amor.  
- Oras! Julgava-me livre, mas vejo que já me converti. Tu mandas, e eu servilmente calo.
- Então, meu amigo e servo, mate-me. De algum lugar tua santa irá interceder por tua alma. Peço-te apenas que conserves minha beleza... E que sejas rápido.
- Depois de morta, estarás mais bela que nunca. Mas confesso que não posso imaginar maior beleza que esta que meus olhos vêem.
- Usarás arma de fogo ou coisa assim?
- Admiro tua bravura, mas será mais fácil se não souber. Feche os olhos, sim?

Valentina olhou em volta, em breve despedida. Soube que sofreria por suas irmãs, em especial a caçula. Por seu adorado gato Leopoldus também. Mas não poderia continuar entre os poucos que amava e ao mesmo tempo viver sob o teto dos inimigos de sua alma.

Obedeceu a instrução do cavalheiro e deixou-se guiar às cegas até o parapeito da ponte. Estremeceu de frio e medo, mas desta vez não seria covarde. Abraçaria a Morte, qualquer que fosse sua aparência... E estando de olhos fechados, era como se o Nikolai fosse a própria Morte...

O vento pareceu adquirir consistência, deslizando em espirais por seu pescoço, braços, tornozelos, invadindo suas vestes. Uma atmosfera hostil a envolveu por inteiro, e ela se sentia como um animal acuado, que pressente desgraças antes que aconteçam. Era como se Nikolai a estivesse rodeando, como um lobo em volta da presa.  E com ele, uma matilha inteira formada de ar. A sensação era de que a ameaça vinha de todos os lados e ela não ousou abrir os olhos. Não conseguia. Estava petrificada e seu corpo não obedecia aos instintos de sobrevivência.
Valentina sentiu o corpo inteiro de Nikolai contra suas costas. Cada músculo, cada membro, cada contorno, numa proximidade exagerada e íntima. As mãos lascivas envolveram sua cintura e prenderam-na com volúpia.  Ele pôs a palma sobre sua têmpora, e sem encontrar qualquer resistência, moveu-lhe o rosto, deixando o pescoço da moça completamente exposto. De olhos fechados, ela sentiu o toque do nariz grego sobre sua pele a absorver o seu cheiro, os lábios frios a beijar e depois lamber sua garganta. Sentiu-se ultrajada, vulnerável, impotente. Mas ao mesmo tempo, como que possuída por um encantamento imundo, desejou que aquilo se tornasse mais intenso, que ele enterrasse o rosto de vez em seu pescoço, em seus cabelos e que lhe arrancasse a carne.  E assim o fez. Ele a mordera! Aquele homem perverso e libertino cravara os dentes em seu pescoço com a violência de uma fera. Após certa resistência, a pele rompeu-se sob os caninos pontiagudos e mortais de Nikolai. O sangue abandonava seu corpo em jatos na intensidade imposta por aquela boca vil, que sugava ininterruptamente. Era como se seu corpo não mais existisse, e seus membros fossem completamente feitos de dor.  O único som que conseguia emitir era um abafado arranhar de cordas vocais, e foi emudecendo na medida em que enfraquecia. Aos poucos a dor cedia, e sentia-se leve como uma pluma. Seu corpo estava arqueado de uma forma que causaria desconforto a qualquer um que estivesse lúcido. No entanto, ela sequer sabia em que posição estava e perdera completamente o senso de direção. Todavia, sabia que as mãos de Nikolai ainda a apoiavam. O local onde ele a mordera estava úmido, e presumiu que fosse de saliva ou sangue. Sentia o estalar dos lábios dele em seu pescoço. Ele agora a beijava, como se não fosse mais a fera de tempos antes.

Seus últimos pensamentos foram de arrependimento, por permitir que aqueles lábios estranhos a tocassem. Sentiu como se chorasse, e um terrível frio a invadiu. Por fim, seu corpo se debateu. Eram os espasmos da Morte. Ela estendia as mãos esqueléticas em sua direção, e embora não pudesse ver seu rosto descarnado, sentiu-se amparada pela senhora sombria.  Valentina abraçou a Morte e sentiu um inesperado conforto ao ser envolvida por seu manto. 

terça-feira, 30 de maio de 2017

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo V

Os dias que se seguiram foram rotineiros. Valentina ia ao cemitério, trocava juras de amor com o Fantasma. Permaneceu, inclusive, no propósito de morrer. Retornava para casa pelos mais sombrios e perigosos caminhos. A sensação de ser observada não cessou. Todavia, o máximo que lhe aconteceu foi ser atacada por dois ou três morcegos que tiravam rasantes próximos à ponte.
Cruzava com o cavalheiro frequentemente, e este insistia em levá-la até sua casa (contra sua vontade, obviamente). Descobriu que seu nome era Nikolai Slavomir, e que herdara um castelo pouco afastado da cidade. Fora isso, o cavalheiro nada mais revelou sobre si. No entanto, seu sotaque pesado e a pronúncia forte do “r” indicavam que ele era de terras bem distantes. Talvez de outro continente.
- Tens negócios por aqui? Ou estás empregando tuas noites a “seguir-me”? – Perguntou Valentina.
- Se continuo nesse tedioso vilarejo, é por ti. – Nikolai parou à frente da moça, interrompendo a caminhada - É chegada a hora de saberes que gosto de ti. Que te amo.
- Pois bem. Saibas que pretendo morrer. E isto, para juntar-me a meu amor, o ÚNICO de minha vida. – Valentina respondeu com veemência.
Os olhos azuis de Nikolai encheram-se de mágoa. Valentina apiedou-se e tentou amenizar suas últimas palavras:
- Não deverias desperdiçar teu tempo a tentar conquistar um coração selado, como o meu.
- Minha querida, tenho até o último de teus dias para tentar. E se isto não for suficiente, talvez mais: a eternidade.
- Agora blasfemas ao proferir tais crenças.
- Hahahaha! Donzelas de teu tipo me comprazem: destemidas, porém tolas.
- Isto foi rude! – exclamou, boquiaberta. Era a primeira vez que aquele cavalheiro faltava-lhe com o respeito. - Peço que não me acompanhes mais. Sei o caminho de casa, assim como posso perfeitamente me defender. – pegou uma pedra e ergueu-a de forma ameaçadora, sugerindo que a usaria caso necessário.
Nikolai sumiu como que por encanto, deixando apenas seu riso sinistro no breu.

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Na noite seguinte Valentina revelou a Klaus a existência de Nikolai. Relatou todo ocorrido e lamentou ter se deixado acompanhar por um desconhecido. E enquanto confessava, deu-se conta do quanto aquilo fora imprudente e inapropriado. O noivo pediu que não fosse mais ao cemitério, pelo menos por alguns dias. Em vão.
- Virei aqui todos os dias, até mudar-me definitivamente para teu túmulo.
- Ainda com essas idéias tolas?!
- Também me tomas por tola?! Trata-se de nosso amor! – profundamente magoada, saiu às pressas de sua presença, pisando sobre flores e sepulturas.
Para aumentar seu desgosto, mal saiu do cemitério e lá estava Nikolai, sentado em um banco com ar nobre e riso cínico. Valentina tentou ignorá-lo.
- Estás atrapalhando meu propósito... Enquanto estiver perto, a Morte não virá. - suspirou, ao perceber que Nikolai caminhava a seu lado.
- Estás enganada. Quando ela vier, não me colocarei entre vós. Não te livrarei. É uma promessa.
- Mas não desejo sua companhia. Isto já causou problemas demais entre meu noivo e eu.
- Diga a seu noivo que duelemos então. O vencedor ganhará teu coração.
Valentina começava a por em questão a maturidade daquele cavalheiro. Não se sentia mais propensa a levá-lo a sério, ou irritar-se com ele. Seria inútil.
- Meu noivo e você jamais poderiam duelar...
- Diga-me, Valentina. O que poderia fazer para ganhar teu amor?
- Não há nada que possa fazer para tal, senhor. Se quiseres ao menos minha estima, apenas deixe-me seguir meu caminho. A única companhia que desejo nesta triste noite, é a da Ceifadora das almas.
- Querida, és tão bela quanto sombria. – riu Nikolai. – Providenciarei este encontro.
Como de costume, Nikolai pareceu sumir por trás de sua capa negra. Valentina estremeceu.
A atmosfera estava úmida, cheia de chuva disfarçada. E seu corpo era como aquele ar: completamente feito de lágrimas contidas. Não demoraria até precipitar por inteiro, e escorrer pelo chão, até sumir... Ao chegar na ponte, sentou-se no parapeito e pôs-se a observar a agitação que o sereno provocava na superfície do lago. 
- Perdoem-me os céus por desejar que mãos de vento me lancem nas profundezas do córrego, e que nada além de minha alma torne a subir!
De súbito, foi surpreendida por um crescente vozerio. Era um grupo de rapazes, que se aproximava. Dentre os três beberrões, estava seu pretendente Arthur. O rapaz, terrivelmente debilitado pelo ópio, usava os ombros amigos como muletas.
- Valentina! És tu de verdade, ou um anjo mal disfarçado?
A moça sobressaltada escondeu o rosto entre os cabelos.
- Amigos, sois maus! Maldita seja a mistura que me serviram por álcool, pois agora até em delírio me vejo diante desta mulher! Não basta ter de me casar com ela? Vá embora Valentina! Em meu peito só há lugar para Barbara.
Aquilo a surpreendeu, pois imaginava que o filho do conde a amasse.
- Arthur, não é fantasma ou demônio. É sua noiva! – disse o mais sóbrio. – Mostre algum respeito!
- Tu sim, és mau, Arthur! És um ingrato! Quem, neste vilarejo miserável, não desejaria passar a noite sobre os seios de Valentina?!– disse, entre soluços o outro amigo, o mais bêbado. E depois explodiu em ruidoso riso.
- Perdoe-me Valentina! É que não a amo! Eu amo Bárbara! No entanto, casar-me-ei contigo, pois é meu dever... Tu sabes, somos ricos... – Arthur desvencilhou-se dos amigos e caiu sobre os braços de Valentina, que o amparou. O rapaz continuou, em tom de confidência – Pro inferno teu dinheiro e o meu... Mas teu noivo morreu... Não quero que Barbara seja morta também! Apesar de tudo, saibas que não te amo... Nunca te amarei... Desculpe!
Um terrível tremor se apoderou de Valentina. A moça quase tombou ao decifrar o significado daquelas palavras. O amigo mais sóbrio antecipou-se para apoiá-la, enquanto Arthur foi ao chão.
- O que ele está dizendo? – Valentina jogou-se sobre Arthur e segurou-lhe pelas golas. Os olhos da moça já emanavam em uma torrente de lágrimas.
- Peço que o perdoe, pois não sabe o que diz. – argumentou o amigo sóbrio.
Valentina livrou-se dos braços protetores e sacudiu Arthur para arrancar a verdade em meio aos soluços ébrios do rapaz.
- Se tu sabes algo sobre a morte de Klaus, conte-me agora! Exijo-te! Suplico-te!
- Solte-me! Se aquela a quem eu amo nos surpreender assim, estará tudo acabado... Tudo. – protestou Arthur, porém sem forças para livrar-se de Valentina.
- Se disseres o que sabes, juro que não mais me verás. Não precisarás casar comigo, pois não estarei mais aqui entre vós. Suplico-te que fale!
- Jure... – respondeu Arthur, e foi ao chão.
- Juro pela saúde de meu pai, pela vida de minha mãe!
- Terás de jurar por outros... Depois que eu falar, vai desejar aos teus pais algo mais terrível que a morte.
Aquelas palavras carregadas de álcool faziam sentido, por mais doloroso que fosse.
- Jure Valentina...
- Juro!
- Por quem tu juras?
- Por Deus, pelo rei, pelo eterno descanso de meu falecido noivo! Fale!
- Não o leve a sério. – interviu o amigo sóbrio. - Está bêbado, não vês? Delira.
- Eu não estou bêbado... Deixe-me falar! – empurrou o amigo, e continuou sem meias palavras - Seu noivo está morto porque nossos pais assim o quiseram.
- O que estás dizendo???
- Isto mesmo, Valentina! Foi uma emboscada... Mas não matarão Bárbara. Antes eu mato meu pai, o teu, o padre, até mesmo o diabo!

Valentina tombou para o lado, tão pavorosa era aquela informação. Ao levantar-se, nada mais pôde fazer, além de correr, correr, correr. Embrenhou-se na parte mais densa do bosque, de forma que não soube quando o dia raiou. Deitou-se catatônica entre as raízes de uma árvore centenária. A Mãe Natureza apiedou-se de seu choro, de forma que nem mesmo uma formiga a molestou.

sábado, 7 de novembro de 2015

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo IV

No dia seguinte Valentina acordou pouco antes do almoço, febril e com os pés em frangalhos. No entanto, estava feliz. Aquelas feridas atestavam que a noite anterior fora real. Pela primeira vez depois da morte de Klaus, sentiu-se disposta a sair da clausura de seu quarto, caminhar, respirar ar puro, sentir um pouco de sol.

Foi ao jardim e deixou-se invadir pela energia restauradora do astro rei, recuperando o rubor que a tristeza roubara de sua face. Entrou em casa quase que dançando, para admiração de todos. Sentou-se à mesa e serviu-se de tudo. Provou do ensopado, do pernil, e serviu-se de duas generosas fatias do bolo.

Os pais observavam atônitos, e a irmã caçula até cantarolou:
- “A Tina está namorandoo, seus olhos estão brilhandoo...”
Valentina afagou as tranças da pequenina, e respondeu com um sorriso.
- Quanta alegria, minha filha!
- De fato, meu pai!
- Já era tempo de você se reerguer. Que bom que atentou para meus conselhos, querida filha  – Gabou-se a mãe, julgando-se responsável por aquela melhora.

- A que se deve tamanho entusiasmo? – questionou o pai.
- Enquanto houver esperança, serei feliz! A quem mais os pássaros cantam, senão àqueles que aguardam ansiosos a sucessão dos dias? Os pássaros cantam por mim!
- Vejo que estás novamente apaixonada! Quem será o rapaz? – perguntou a mãe, respondendo logo em seguida – Presumo que Arthur Gundbrandsen!
- O dono de meus sentimentos sempre foi, e sempre será o mesmo. – respondeu com tamanha convicção, que todos os olhos e ouvidos presentes atentaram para tal declaração.
- Pois não entendo! – retrucou a mãe, buscando respostas no olhar dos demais.
- Minha filha... Seu noivo está irreversivelmente morto. – disse o pai, como um professor que explica algo complexo. Tentou manter a calma, pois pela primeira vez temeu pela sanidade de Valentina.
- Você não pode passar o resto de sua vida de luto! Esqueça-o de uma vez por todas! – disse a mãe, sem qualquer paciência para uma nova discussão.
- Pois ouça bem, minha mãe. Não esquecerei meu grande amor em um mês, e nem pretendo fazê-lo enquanto viver! – retirou-se após essas palavras, deixando a mãe nervosíssima.

Apesar de nada poder roubar sua felicidade, sentiu-se incompreendida. E como poderiam entendê-la? Se soubessem de suas experiências da noite passada, tomariam-na por louca, ou até mesmo praticante de bruxaria. Seria excomungada. Teve febre novamente, provavelmente causada pela friagem da madrugada anterior.
Acordou para o jantar, mas comeu em seu quarto. Não se sentia motivada a discutir novamente com sua mãe. “Como são insensíveis...”, pensou, enquanto tomava um copo de leite morno. Mas não se ateve a pensar em seus pais. Sua angústia era outra, que comprimia seu peito e embrulhava o estômago. Precisava ver Klaus novamente. Seria muito injusto se não o pudesse. Não suportaria perdê-lo por uma segunda vez. A mãe veio medir-lhe a temperatura e desejar boa noite. Mal podia imaginar que, por baixo das cobertas, Valentina estava completamente vestida para sair.

Quando se sentiu segura de que todos dormiam, a moça forjou em sei leito uma silhueta com almofadas, de modo que se alguém checasse seu quarto, pensaria que ela estava dormindo. Tomou o caminho secreto, e logo estava fora de casa.

Aquela noite estava demasiadamente fria e o vento, cortante. Ainda que com os pés feridos, seus passos eram determinados. Nenhuma dor ou medo a deteria rumo aquele encontro. Mantinha o pensamento em seu amado e deixava que as mais cálidas lembranças aquecessem seu corpo.

No entanto, seus delírios de amor foram cedendo a uma estranha sensação. Era como se algo maligno estivesse à sua espreita, montando uma espécie de cerco que se estreitava cada vez mais. A presença opressora se esgueirava por entre as árvores secas, varrendo a folhagem morta do chão. O vento rodopiava, formando redemoinhos de poeira e folhas. Ou seria neblina?! Por trás daquele sinistro fenômeno, teve a impressão de ter visto olhos ardentes, que chispavam aqui e ali, onde a treva era mais densa.

Fez o sinal da cruz e apressou o passo. Quanto antes estivesse ao lado de Klaus, mais segura estaria. Seu amado não deixaria que nenhum mal a acometesse. Aquela pavorosa neblina se dissipou quando chegou ao cemitério. Sentiu-se aliviada ao refugiar-se por trás dos portões.

O cemitério estava completamente escuro, iluminado apenas pelas estrelas. Por sorte já conhecia bem o caminho para o túmulo de Klaus. Mas para seu desespero, não avistava em lugar nenhum a silhueta fluorescente de seu Fantasma.

Aflita, começou a chamar pelo nome do amado e rogar aos céus que não lhe negassem aquela graça.

Quando estava prestes a chorar, surpreendeu-se um com ruidoso estilhaçar. Virou-se rapidamente, com a mão sobre o peito. Lá estava Klaus, e à sua frente um arranjo que ele arremessara contra o chão.
- Valentina! Podes me ver?!
- Sim, meu amor, sim! – disse, e lançou-se nos braços do Fantasma. Mas acabou atravessando o corpo imaterial.
- Estou tentando atrair sua atenção desde que chegou ao cemitério. Foi mais fácil que da outra vez. Acho que estou aperfeiçoando minha técnica de comunicação com os vivos! – disse, satisfeito.
- Não pode imaginar a felicidade que isto me traz! Mas em breve não precisará mais de tantos esforços. – disse Valentina, perdida em incógnito vislumbre.

 - Por que diz isso? – perguntou, intrigado com aquela expressão no rosto da moça. Conduziu Valentina a um conjunto de grossas raízes que serviam perfeitamente de assento. Não podia toca-la, mas sua energia a envolvia de forma quase palpável. Ele sentou ao lado da moça e pôs as mãos sobre as dela.
- Certa vez ouvi dizer que os espíritos podem tocar uns aos outros. É verdade? – retomou aquele ar esfíngico.
- Sim. – fez uma pausa, desconfiado acerca do que viria adiante. – É verdade. Mas porque pergunta?
- Porque pretendo me tornar um fantasma, assim como você.
- Valentina, você...
- Sim. Morrerei. E assim finalmente me unirei a ti, como sempre sonhamos.
- Você não sabe o que está falando. Você tem muitos anos pela frente! É jovem, ainda pode ser feliz! – a figura de Klaus brilhou ainda mais,como uma estrela prestes a morrer.
- Mas minha felicidade está contigo! Sem ti, não poderei suportar sequer um ano. A morte é inevitável para mim. Ainda que eu viva um século, envelhecerei. E quando morrer, serei um fantasma decrépito, que assustará até a ti.
Klaus não riu daquelas palavras, apesar de terem um tanto de graça. Era tudo verdade. Valentina envelheceria, mas isso ele poderia suportar.  Mas era bem provável que fosse obrigada a se casar com outro homem, e sujeitar-se aos caprichos deste. A sociedade não era justa para as mulheres. Era normal que os maridos subjugassem as esposas. Além disso, homem algum amaria Valentina como ele. Mas era por amá-la tanto que jamais aceitaria seu sacrifício em nome daquele sentimento. Tratou logo de mudar de assunto. Não daria asas a tais pensamentos.

- Você fica mais bela a cada dia! Pergunto-me como isto é possível. Estou certo de que na terra não existe donzela alguma de semelhante beleza.

De fato, Valentina estava deslumbrante. Sedutora à sua maneira tímida. Trajava o belíssimo vestido creme que reservara para as núpcias. O decote quadrado valorizava o busto adornado por um camafeu dourado. A rica joia se perdia por entre os seios de nívea brancura. O corte justo realçava o ventre esguio, o volume dos quadris. Lamentava ter se mantido casta em nome das convenções religiosas e sociais, que de nada lhe serviam agora que seu amado estava morto. Naquele amor não haveria pecado. Tudo seria sacramento.

- Vesti-me especialmente para ti. Estou pronta para ser tua, Klaus.
- Mas como poderei, Valentina...?! – Klaus estremeceu.

Em silêncio, a moça começou a se despir lentamente de suas vestes e pudores. Desprendeu os feixes do vestido, revelando um ombro e depois o outro. Embora todo seu corpo tremesse de frio e sofreguidão, mantinha o olhar no amado. Klaus permanecia petrificado, como que sob o encanto de uma deusa mitológica. A aura do Fantasma tornou-se vermelha como o fogo e inflamava à medida que Valentina prosseguia com o lânguido rito. Ela se virou e deixou o vestido cair até a cintura, revelando a sedutora musculatura das costas e as estonteantes covinhas de Vênus. Quando Valentina virou-se de frente e exibiu o voluptuoso e perfeito par de seios, o Fantasma chegou ao ápice do desejo. Klaus tornou-se uma figura fulgurosa e incandescente que ameaçava consumir-se a qualquer momento, tamanha era a excitação que o acometia.

No entanto, em um lampejo de lucidez, o Fantasma recobrou o controle de si.
- Por favor, Valentina. Pare. Vista-se! Não podemos continuar com isso. Não é correto, nem possível! – soluçou Klaus, envergonhado de si, de sua incapacidade, de sua fraqueza.
- Não lute contra isso, meu amor! Sei que me desejas tanto quanto eu a ti! Por favor, Klaus, não adiemos mais esse momento, pois essa espera me adoece! Não vês que estou enferma de amor?!
- E tu não vês que estou morto? Que não posso sequer te tocar. Como poderia eu... Como poderia, Valentina?! – exclamou, desesperado.
- Não me importa que estejas morto e incorpóreo. O simples contato com tua energia pode me levar ao mais sublime gozo! Vem, meu amor! Invade meu corpo com tua cálida aura. Deposita em mim teu calor e vida, pois também morri naquele fatídico dia!  
- Não posso, Valentina! Não seria justo para contigo. Vista-se. Tem outros espíritos a espreita. Não quero que comprometa tua virtude.
- Pois a mim não importa. Não os vejo! Se for o caso, vamos ao teu túmulo!
- Pare! Não diga mais nada, pois não estás agindo com lucidez. O desejo quase me cegou, mas não deixarei que roube sua visão.
- Klaus... – Valentina emudeceu. Vestiu-se e nada pôde falar tamanha era sua frustração.
- Tu sabes o quanto te desejo. Essa tortura é ainda maior para mim do que para ti.

A moça deixou o cemitério aos prantos.
Decidiu de uma vez por todas: Naquela noite, morreria. 

---


Valentina seguiu errante pela noite, profundamente abalada.

Seja pela vontade dos deuses, ou por uma inexplicável sorte, não sofreu nenhum dano, não foi roubada, ou abordada por qualquer malfeitor. Nem sequer recebeu um galanteio mais afoito dos bêbados que vagavam pelas ruas à noite. Na verdade, aquela cidade nunca fora tão silenciosa quanto aqueles tempos. Uma série de assassínios estava mantendo os nobres em suas casas ou em quartos de bordéis. E os mendigos pareciam ter sumido das calçadas onde costumeiramente dormiam.  

“Fantástico...” Praguejava Valentina, enquanto marchava lentamente para morte (ou para casa, o que viesse primeiro). “O terrível estripador não passa de uma fábula...”. Sentou-se no parapeito da ponte e continuou a refletir. “Tal rumor é deveras conveniente. As mulheres mantêm seus maridos em casa, e os jornais vendem mais exemplares. Afinal, todos se interessam por assassinos em série. Grande lorota.”

Lembrou-se, porém daquela experiência pavorosa que a fez fugir.  Deu-se conta que ainda guardava consigo um tanto daquela sensação, e perdeu o fôlego.  Olhou em volta e novamente se sentiu observada. Era como se a presença estivesse lá, sempre à espreita. De certo estava lá! Levantou-se do parapeito, temendo que uma mão terrível a puxasse para o rio. Sentia que não poderia dar as costas para nenhuma direção, pois aquele mal a vigiava por todos os lados. Pôs-se a caminhar apressadamente, girando a cada cinco passos. Aquela presença opressora a fez por um momento esquecer a futura “vida” ao lado de seu amado fantasma. Quem resiste ao terror da Morte? Que espírito sobremaneira elevado encararia sua algoz sem trincar os dentes? A Morte era terrível para todos. Ainda que trouxesse o alívio final para alguns, o encontro com a sinistra dama afetaria o mais forte ser vivente.

O instinto natural a fez correr, mas as vestes volumosas não lhe permitiram ir longe. Em menos de dez metros percorridos, Valentina foi ao chão. Ergueu-se um pouco com auxílio das mãos e virou o tronco para encarar os olhos cruéis de sua verdugo. 

Para a sua surpresa, não era a Morte e sim um elegante cavalheiro em trajes de gala. Ele tinha cabelos loiros caindo nos ombros e um rosto tão sombrio quanto deveria ter aquela a quem esperava.
- Pensava que eras mulher – balbuciou a moça.
- Por quem me tomas?! – respondeu, com certa frustração.
- Perdoe-me, senhor. É que eu esperava a Morte.
- Receio que não nos pareçamos.
- Estou certa que não – respondeu Valentina, enquanto apalpava as têmporas, toda confusa.

Ele lhe estendeu a mão, com um riso no canto da boca. Seus dentes reluziram de forma sinistra à meia luz. Apesar da impressão taciturna, era belo. Teria notado o charme do cavalheiro, não estivesse perdida de amor pelo Fantasma.

- Acho que não encontrarei quem procuro esta noite.

Ele riu.

- Quem sabe amanhã? – respondeu com certo humor negro, que causou arrepios na moça.

- É. Quem sabe.

Valentina limpou a terra das vestes e seguiu para casa apressadamente.
De alguma forma, sabia que não estava sozinha.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo III

Os dias passavam e Valentina sabia que aquela crescente dor jamais se tornaria mera saudade. As pálpebras inchadas e sempre úmidas falhavam em represar o manancial infindo de lágrimas. Definhava dia após dia. Sua postura etérea agora parecia o flutuar de um espectro. Ao cruzar com a irmã caçula no corredor, causou na criança grande espanto.

Era bom que parecesse feia. O filho de Gundbrandsen não casaria com uma moça de aspecto doentio, assim como nenhum outro rapaz do reino a proporia. Mas estava enganada ao pensar que tais sutilezas prevaleceriam sobre os interesses por trás daquele matrimônio alcovitado. O vento malvado tratou de levar aos ouvidos da moça os silvos das más línguas, que já especulavam a respeito de seu casório com Arthur, o filho do conde.

As contas do terço bateram estridentes contra a parede. Cansara de todos, da sociedade, das rezas, da vida. Entregar-se-ia a morte, definharia dia após dia. Deixou de comparecer às refeições e sequer levantava da cama. Mergulhou em profunda melancolia. A noite era o único momento em que tinha pequenos sopros de alegria. Edificou um templo para Klaus em seu subconsciente, e em sonhos revivia os dias felizes que tiveram.

Certa noite, porém, não conseguiu dormir. Sempre que os olhos pesavam, despertava noutro instante com a impressão de ouvir chamarem seu nome. Relutou por algum tempo, até ouvir nitidamente, como se falassem ao seu ouvido. Arrepiou do alto da cabeça aos pés.

Levantou num ímpeto, e foi até a varanda de seus aposentos. O vento uivava impetuosamente e trazia junto à sua estrondosa onomatopeia a inconfundível voz de Klaus. Trêmula, cobriu-se com o robe de cetim e tomou a passagem secreta que outrora utilizava para encontrar-se às escondidas com o falecido noivo.  Num piscar de olhos estava do lado de fora da mansão. Iria ao cemitério, pois de algum lugar dalém dos fúnebres portões, seu amado a chamava.

Estava frio lá fora, e as ruas desertas. O vento desgrenhava-lhe os cabelos, e investia contra sua frágil vestimenta, obrigando-lhe a reforçar a segurança com as mãos. Pouco importava se alguém a visse e o juízo que fariam de seu estado mental. Todos naquela cidade sabiam de seu infortúnio, e não lhe julgariam leviana pelas vestes inapropriadas. No máximo a tomariam por louca. De qualquer forma, cobriu o rosto com os cabelos. Se o relato de sua imprudência chegasse aos ouvidos de seus pais, eles tomariam medidas drásticas.

Sem parar um instante sequer para recuperar o fôlego ou descansar os pés descalços, atravessou o pequeno vilarejo: a praça vazia, a clínica do médico, o casa da parteira. Pegou um desvio para não passar em frente ao bordel. Passou pela igreja, e todos os santos pareciam fitá-la com seus olhos piedosos.

O chão tornou-se lamacento, e seus pés castigados, sentiram certo alívio ao entrar em contato com a terra úmida. Ignorou a própria dor e continuou seu caminho, pisando cipós e espinhos. Finalmente chegou diante dos ornamentados portões do cemitério, e com grande esforço conseguiu movê-los. A voz que clamara durante todo o percurso, calou-se assim que cruzou o pórtico. Aquele silêncio tumular era de gelar os ossos.

- Por favor, fale! Seja lá o que queres de mim, diga agora! – disse com voz decidida, porém suave.
Para sua frustração, o silêncio.
- És tu, meu amor? Por que foges de minha presença? Mostra-te, anjo de luz! Tua alma iluminada jamais me infligirá medo. Não temas por mim! Aparece!
Não obteve resposta alguma.
- Klaus? Imploro-te que apareça!
Nada aconteceu e a moça rompeu em lágrimas. O desalento invadiu seu corpo, trepido de dor.
- Oh, gênio das trevas lúgubres! Porque me encheste de falsas esperanças? Não está meu espírito quebrado o suficiente? Mostra tua face pavorosa e faz com que a máquina de meu corpo falhe irreversivelmente!

As pernas vacilaram e deixou-se tomar sobre o túmulo de Klaus. Encolheu-se em forma de concha e chorou até engasgar com os próprios soluços. Foi quando um calafrio fez tremer até a última vértebra de sua coluna.

Valentina levantou de supetão e viu AQUILO que desafia as ciências, que marginaliza os crédulos aos grupos místicos da sociedade e leva as mentes fracas à loucura. Ali estava! Repousando sobre seu colo, o FANTASMA de Klaus!!! Seu corpo era completamente translúcido, e não exercia força alguma contra o dela! Em alguns pontos até ultrapassava sua pele, suas vestes! A moça levou a mão à boca e conteve um grito. O Fantasma pareceu se assustar também, e levantou em um rápido movimento.

Os dois ficaram de pé, um diante do outro. Ele, com uma expressão de espanto, ela, ainda tapando a boca, soluçando em copioso pranto. Foram se aproximando com as mãos rumo a um encontro, e tocaram-se vacilantes. A palma translúcida atravessou a mão humana de Valentina. Não puderam sentir o toque físico, mas sim uma sublime e cálida sensação. A moça tremeu ao ser invadida por aquela energia que irradiava por todos os membros. E as lágrimas brotaram com mais abundância, tamanha alegria e êxtase. Na tentativa de tomar o amado em seus braços, acabou por abraçar a si mesma. A sensação foi intensa, porém triste. Não podia abraçar aquele corpo descarnado.

- Eu não tinha mais esperanças de que pudesse me ver! Tenho tentado há tantos dias, meu amor! – disse o Fantasma, sôfrego.
- Eu o amo tanto... – disse, finalmente, em um sofrido soluço. – Por que me deixaste?! – arfou Valentina, quase desfalecendo de emoção.

Naquele momento, falar com Klaus era em tudo diferente, não somente por sua nova forma translúcida e imaterial. Era como se o tempo não corresse normalmente, como acontece em visões, que duram segundos, mas parecem uma eternidade. E ao despertar não se faz ideia de quanto tempo passou. Estaria ele adentrando no mundo dos vivos, ou ela (tão debilitada) no mundo dos mortos?

- Como você tem passado? – Perguntou o Fantasma, tentando fazer daquele reencontro um momento de alegrias e não de lágrimas. Afinal, não tinha certeza se aquilo se repetiria, ou se era uma chance única destinada aos mortos que muito sofrem por não terem dito adeus às pessoas queridas.
- Oh, querido Klaus! Viver me tem sido um terrível fardo desde que você se foi! Não fosse este milagre, amanhã estaria morta. Mas morrer não me é mais uma triste experiência, pois agora sei que me encontrarei contigo... – tratou de mudar de assunto ao notar que Klaus reprovava suas divagações, – Deve ter notado que minhas medidas diminuíram. Não sinto fome. Estou feia.
- Você continua perfeita! Talvez mais bela que antes! – Klaus perdeu-se em admiração ao analisar a amada, tão fragilizada.

O sangue voltou a correr pelas faces da moça, que corou como há muito não acontecia.
- E você? Como está?
- Deveras entediado. A maioria dos mortos só quer chorar por seus vivos e não posso reprová-los. Outros se empenham em vinganças fúteis, ou se divertem assombrando a família do coveiro. Alguns conseguem cruzar os portões do cemitério e andam pela cidade, amedrontando os andarilhos ou visitando os seus. Poucos conseguem comunicar-se com os vivos. Para um “novato”, estou em um nível fantasmagórico elevado, hahaha! É uma pena que não haja outros bardos aqui. Presumo que tenha sido ideia de minha mãe enterrar-me neste cemitério aborrecido. – disse, carrancudo.
- Todos concordaram que este era o local mais adequado para você ser enterrado. – estranhava cada sílaba que pronunciava. – Não é belo, mas como só temos dois cemitérios no vilarejo, e o segundo é por demais ordinário, cremos que essa seria melhor opção.
- Preferia estar ao lado dos fantasmas beberrões, que ser vizinho de Rupert Johnnes. – resmungou, e apontou para o túmulo vizinho, cujo dono era um avarento bancário que morrera junto ao cofre em um assalto.

Ela riu, ainda que frustrada por ter aprovado aquela escolha inconveniente. No entanto, sentiu-se aliviada ao perceber que a morte não levara de seu amado o senso de humor. Era o mesmo por quem se apaixonara!
- Lembra-se de Katrina?
- A vaidosa filha do joalheiro, atropelada por uma carroça?
- Exato. Ela passa o tempo a se lastimar pela cicatriz que o acidente deixou em seu rosto.
Pasma, olhou em volta para ver se era capaz de ver Katrina, ou ouvir suas lamúrias. Nada pôde ver. Sua capacidade de comunicar-se com os mortos restringia-se apenas a seu falecido noivo. Felizmente, aquilo lhe bastava.
- Quer dizer que os ferimentos permanecem depois da morte?
- Sim. Passamos a eternidade (ou sabe-se lá quanto tempo) com a aparência exata do momento em que morremos.

Klaus olhou para seu peito, e lá estava a chaga ensanguentada que a maldita flecha lhe abrira.
- Felizmente eu retirei a flecha antes de morrer, senão ela teria me acompanhado. Espero que minha camisa rasgada não esteja muito deselegante a seus olhos.
Valentina esboçou em seu rosto toda a dor que aquele ferimento lhe inspirava. Levou os dedos até a ferida, mas não pôde tocá-la.
- Não se preocupe, não dói. Não mais.
- Como isto aconteceu? – refletiu sobre quão dolorosos foram os últimos momentos de Klaus. “Sua morte não fora rápida... Como deve ter agonizado!” – pensou.
Ele hesitou. Finalmente escolheu as palavras e narrou o ocorrido.
- Bem... Eu estava voltando para o vilarejo, ansioso para encontrá-la. De repente, fui atingido em cheio. Caí do cavalo, e a queda tirou-me os sentidos. Minhas lembranças são vagas... Mas saiba que meu último pensamento foi para você.
- Você viu o autor do disparo? Conte-me e pedirei a meu pai que vingue sua morte!
- Não minha querida. Não vi quem atirou em mim. – respondeu, depois de uma prolongada pausa.
- Descobrirei quem fez isto a você. É uma promessa!
- Estou certo de que descobrirá. No entanto, estou irremediavelmente morto. Não há como reverter isso e já aceitei meu destino. O único motivo de sofrimento para mim é não poder tomá-la em seus braços.
Ambos calaram, pois compartilhavam daquela dor.

- Agora é chegado o momento mais triste que minha morte.
Ela indagou com os olhos imersos em lágrimas, sem poder imaginar algo pior que o terrível momento em que perdera seu amado.
- Extasia-me a possibilidade de podermos conversar novamente, assim como estremeço ao pensar que esta poderá ser uma despedida definitiva. Mas meus sentimentos não me são preciosos quando se trata de sua proteção. Você precisa voltar agora para casa, ou comentarão que está louca. Além disso, há muitos perigos na noite. Existem veredas tenebrosas, onde os caminhantes são abandonados até pela própria sombra. Se eu pudesse... – suspirou, enquanto tentava acariciar o rosto ruborizado da moça, transmitindo-lhe calor. –... Se eu pudesse, te acompanharia até em casa. Mas não consigo ultrapassar os portões do cemitério...
Novamente a dor, a angústia, a sensação de perda. Era como se o momento da morte de Klaus se repetisse.
- Como saberei se poderei vê-lo novamente?! Eu não posso deixá-lo! Não agora que o reencontrei! – ela já estava se desfazendo em lágrimas.
- Não sei, minha querida. Mas não desperdicemos este momento. Serei eternamente grato aos deuses! Ainda que não mais a veja, este reencontro me deixará satisfeito por toda a eternidade! Eu a amo, imensuravelmente.
Após esta bela declaração, tocaram os lábios, e o calor os invadiu.
- Eu também te amo. Para sempre! – murmurou, tentando conter o desespero que esganiçava sua voz.
- Agora vá, minha amada! Vá, e não fale a ninguém sobre isto!
- Eu voltarei! Eu voltarei! – dizia para ele, e para si mesma, enquanto corria. Quando olhou novamente para trás, ele não estava mais lá.

Por trás de uma árvore seca, o rapaz calado ficou. E de seus olhos brotavam belas gotas brilhosas, que pareciam lágrimas. Lágrimas de um Fantasma.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo II

Ao acordar no dia seguinte, Valentina ainda estava em estado negação. No entanto, desistira da ideia de sair em busca de Klaus, dada a debilidade induzida pelos calmantes. Tampouco podia pensar em qualquer coisa. Ao mergulhar em si, ao perscrutar sua mente, tudo era um grande e infindo branco. Limitava-se a ouvir, inerte, o falatório dos espectadores de sua desgraça que se reuniam em volta do leito. Cochichavam sobre o ocorrido, ignorando sua presença.

- Ouvi dizer que ele foi torturado! É verdade? – perguntou uma senhora mexeriqueira.
- Na verdade ele foi atingido por uma flecha. Sabe como as pessoas exageram, não é querida? – respondeu a mãe de Valentina.

Em outro canto, o pai conversava com um amigo.
- Você sabe que este casamento não me interessava muito. A família dele era riquíssima, mas o jovem almejava uma vida campestre, sem grandes luxos. Que pai desnaturado desejaria tal sorte para uma filha?!
- Quem sabe meu filho não a agrade? – respondeu o decrépito e maçante conde Gundbrandsen.
- Dizem que foram atacados por uma das tribos da floresta. – cochichou uma empregada à outra.
Seu desejo era expulsar todos aos berros dali. Mas não tinha forças, não conseguia falar. Pareciam ter-lhe roubado o ar dos pulmões e a voz.

Chegada a hora do funeral e minimizado o efeito dos sedativos, chorou sobre o corpo de seu amado klaus. Beijava-lhe os lábios e acariciava-lhe o rosto como se aquele último momento fosse a tão sonhada lua de mel.

- “Devo permanecer neste mundo estúpido que, sem você, não valerá mais que uma pocilga?”*. De certo que não, meu amor. Não temas, querido. Não te deixarei sozinho! Faremos deste triste sepulcro nossa alegre casa. Juntar-me-ei a ti!
Tiveram de segurá-la para que não se atirasse na sepultura junto ao morto. O médico da família, sempre a postos, aplicou com maestria uma de suas injeções eficazes. Sem mais forças, cedeu novamente ao efeito dos calmantes.


*William Shakespeare


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Os dias que se seguiram foram de dor e sofrimento para a pobre moça. Revestida de luto, nada fazia além de rezar pela alma de Klaus. Nem mesmo descia ao jardim, que tanto apreciava. Deixou que suas flores murchassem e aos poucos deixava-se morrer também. Suas faces rosadas perderam a cor, adquirindo homogênea palidez por todo o corpo. Seus olhos brilhantes foram tomados por profundas olheiras, e seu corpo tornou-se magérrimo.

Todos os dias a moça ia ao cemitério e velava o túmulo de seu amado por horas. Retirava as ervas que insistiam em enroscar na lápide e adornava o sepulcro com flores azuis que brotavam na fértil necrópole. Os pais, desconhecendo o hábito da filha, supunham que Valentina saía para encontrar as amigas, e que seu estado melhoraria com o contato social. Por não compartilharem de seu infortúnio, a morte de Klaus já deveria estar mais que superada. “Afinal, já se passara um mês”. Eles riam, cantavam e se banqueteavam com a maior naturalidade. Como se o pesar que demonstraram no enterro do rapaz não devesse ser encenado por mais que um dia.

- Por que continua usando essas roupas, minha filha? Preto não lhe cai bem!- perguntou a fútil mãe.
- Por que estou de luto. – respondeu, entre dentes.
- Ah, mas não devia ficar tão triste! Se exigi sua presença esta noite no jantar, é porque receberemos um ilustre convidado! Você mal pode imaginar a surpresa que lhe aguarda! Vamos, troque de roupas! Ponha o vestido rosa e a gargantilha de diamantes que seu pai lhe deu!
- Desculpe-me, mas sinto não poder fazer cortesias a ninguém. E quanto ao luto, não tirarei nunca.
- Mas filha, o Conde Gundbrandsen e o filho estão vindo jantar conosco! Já devem estar chegando.
- O que?! – Valentina se levantou da mesa ruidosamente, sem poder acreditar em tamanha insensibilidade.
- Olha os modos, menina! – esbravejou o pai. - Faça o que sua mãe diz!
 - Pois bem. Jantarei com o ilustríssimo conde e seu filho. Mas saibam que quando me propuser casamento, direi a ele que não o amo e que sempre pertencerei a Klaus! Não me casarei com homem algum ainda que me torne uma planta seca e estéril pelo resto de meus dias, que de certo serão abreviados pela dor que me causam com tais ardis!
- Vá para seu quarto! – agora foi o velho quem se levantou, batendo as mãos sobre a louça e talheres. – Mas não pense que escapará da surra que lhe darei!
- Castigue-me. Mate-me se assim preferir. Assim me poupará de cometer contra minha vida imperdoável transgressão! Mate-me, pai! Mate-me se verdadeiramente me estimas!

O homem levantou-se vermelho de ira, com as veias a ponto de explodirem. Neste momento, faltou-lhe o ar e o coração ameaçou falhar. A mulher correu para ampará-lo e expulsou Valentina aos berros.

- Você quer matar seu pai?! Filha desnaturada! Ingrata! Saia daqui antes que acrescente a morte de seu pai à sua infinita lista de pecados! Saia! Trataremos do assunto nós mesmos. Se bem nos parecer, acertaremos o noivado hoje mesmo! Oras! Essas moças de hoje tem muitas regalias!

Desolada, Valentina chorou até não mais possuir lágrimas para verter. Preferia a morte a entregar-se para outro homem.

- Ai de mim, Senhor, ai de mim! Perdoe minha pobre alma se algum dia for à Tua presença antes que Tu a chames! Deixai-a entrar no céu, pois é por desespero que cogita tais heresias!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo I

Era uma vez, em um pequeno vilarejo, uma bela moça chamada Valentina. Ela era alva como a neve que cobria aquelas terras no inverno, mas as maçãs de seu rosto eram rosadas como o alvorecer. Suas feições exalavam etérea e virginal pureza. Os longos cabelos negros emolduravam-lhe a face como um véu, sem camuflar, porém, a silhueta perfeitamente esculpida pelo uso de espartilhos. A ela se destinavam os elogios das mais respeitáveis senhoras e as melhores propostas de casamento. Por ela, todos os jovens suspiravam e escreviam suas trovas. No entanto, o coração de Valentina batia exclusivamente por Klaus, por quem se apaixonara desde a infância e permanecia amando até os então 17 anos.  

Os pais de Valentina aprovavam aquela união a contragosto. O rapaz, embora pertencesse a uma linhagem próspera, vivia entre bardos e beberrões. Mas por amor de Valentina, ele prometeu abandonar aquele estilo de vida.  Propôs-lhe casamento assegurou-lhe que seria o bom marido que ela merecia. Todavia, antes do casório, pediu-lhe permissão para embarcar em mais uma aventura, a última antes de se entregar aos votos matrimoniais. Com o doloroso consentimento da moça, partiu para um festival de música e vinho em um reino próximo dali.

Valentina ficou apreensiva, pois as estradas eram cheias de salteadores, e os bosques repletos de armadilhas ocultas. Porém, os preparativos para a cerimônia davam a alegria e esperança que seu coração precisava. Mal cabia em si de tanta alegria e ansiedade.  A família encomendou os mais caros tecidos e contratou o mais renomado alfaiate para a confecção do vestido. O homem franzino garantiu, entre lágrimas de emoção, que Valentina seria a mais bela noiva já vista em todos os reinos. 
O bolo, por sua vez, demandaria do trabalho de todas as confeiteiras da região, uma vez que seria grande o suficiente para servir cada habitante do vilarejo. Além disso, foram encomendadas as mais exóticas e perfumadas flores para os arranjos.

Às vésperas do grande dia, Klaus enviou um mensageiro anunciando que chegaria em breve. Tudo para a festa já havia sido preparado e Valentina mal podia esperar para encontrar o amado diante do altar. Mas a felicidade da moça pouco durou. A trágica notícia veio num pé de vento. Um dos amigos de seu noivo adentrou na cidade, completamente ferido e ensanguentado, tendo fôlego apenas para dizer:

- Todos... estão... mm... mortos... to..dos... Klaus... diga a ela... mortos... – e engasgou-se com o próprio sangue.

E como as pessoas têm o hábito milenar de apressar-se para divulgar más novas, não demorou nada para que fossem até Valentina narrar o ocorrido, sem qualquer precaução ou eufemismo. Ela estava fazendo os últimos ajustes no vestido, quando um menino entrou no atelier, esbaforido, trazendo a triste notícia. Em uma súbita queda de pressão, a moça quase despencou do pequeno banquinho, não fossem as mãos do alfaiate. Conduziram-na até o corpo do rapaz, e contaram-lhe as últimas palavras. A moça entrou em desespero, gritou, esperneou e ameaçou correr para o bosque para resgatar o amado, negando-se em aceitar tal sorte. Em vão. Arrastaram-na de volta para sua casa e o médico da família aplicou-lhe toda sorte de calmantes, até que adormeceu.

ETERNA MÁGOA – poema de Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se a...