quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Vassala Sananda e o Mundo Invertido

Era um lugar muito escuro. E como era escuro aquele lugar. Era como a realidade invertida de um antigo prédio comercial que visitei em outros tempos. A versão fantasmagórica de todo o cenário retratada em cores mortas. Um mundo alternativo erguido em meio à ferrugem, lodo e decomposição. Quando estive ali, as trepadeiras eram verdes, eu lembro. Dois crocodilos moravam no átrio externo, e duas onças também. Mas tudo estava diferente... Não havia qualquer animal, ou trepadeira. A sombra da morte encobriu aquele lugar e fez dele sua morada.

O antigo edifício sucumbia qual um gigante morfético, irreversivelmente tomado pela noite perniciosa. Ali dentro o coração da treva pulsava e irradiava pavor pelos corredores, que eram como o sistema venoso de um grande organismo maligno. A escuridão exalava seu hálito frio de brumas e miasmas, enevoando toda a atmosfera. Ao meu lado, dezenas de vultos humanos vagavam sem destino ou entendimento, esbarrando uns nos outros. Nada mais eram que figuras indistintas... Silhuetas irreconhecíveis na penumbra... Almas enfraquecidas, drenadas, prestes a expirar naquela imitação do Hades mitológico.

Eu caminhava entre espectros com uma infinda sensação de risco. O medo era o único combustível que mantinha acesa em mim a fagulha de minha existência. Noutra ocasião eu me encolheria em um canto com os olhos fechados, a espera de socorro ou de uma morte menos fatídica. Entretanto, meu corpo buscava a saída daquele lugar como um afogado procura pela superfície das águas que o cobrem... Como um enforcado busca fôlego urgente... Num espasmo involuntário de ímpeto. Num reflexo incontrolável de ante mover...

Meus seis sentidos alertavam cada célula do meu corpo para o perigo que ali habitava. E minha intuição estava certa!!! No claustrofóbico labirinto de corredores, havia uma terrível e mortal criatura. Ao buscar uma saída, deparei-me com ela. Assemelhava-se ao Monstro do Pântano, pois seu corpo parecia uma fusão imprecisa de lama e vegetação. Era bípede, e mesmo com sua postura curvada media quase três metros de altura. Apesar da inconsistência de sua forma física, era possível distinguir suas garras longas e pontiagudas, capazes de estraçalhar um tronco humano num só golpe. Embora não pudesse ver sua face, tinha certeza que sua mandíbula era igualmente fatal, pois seus grunhidos eram aterradores e ecoavam por todos os cantos.  Seu passo era lento e arrastado, mas todos os caminhos levavam ao Monstro sentinela. Era como se fosse onipresente.

Que lugar amaldiçoado era aquele?! O que eu fiz para merecer tal destino?! Perguntava-me a todo o momento se havia morrido e ido direto para as dimensões infernais. Corri até a completa exaustão. Meus pulmões estavam prestes a explodir e minhas pernas falharam. Tombei de joelhos a hiperventilar. Quando me vi a beira de um ataque de pânico, um vulto sussurrou em meu ouvido como uma brisa evanescente: “Quando vir a criatura, invoque Vassala Sananda aos quatro cantos da Terra”. Não entendi o significado daquelas palavras, e elas engasgaram em minha boca desidratada. Mas bastou-me ver o Monstro para levantar-me com urgência e proferir o encantamento quatro vezes, uma para cada ponto cardeal. Funcionou. O ser assombroso se foi de imediato.

Levantei-me e segui meu caminho a invocar Vassala Sananda sempre que o Monstro aparecia. De início isso me trouxe imensurável alívio. No entanto, acabei por descobrir que dali não havia saída. E que a mim estava reservado o mesmo fim que aqueles espectros: vagar na obscuridade para todo o sempre, clamando pelo nome de um ser que nunca conheci face a face. Isso me amargurou. Mas com o tempo percebi que no antigo mundo ao qual um dia pertenci não era tão diferente. Eu já estava acostumada a caminhar entre monstros. E também a afastá-los com minhas orações. 

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O louco disso tudo é que ouvi esse nome "Sananda" em um sonho, e ao pesquisar sobre ele descobri que era a denominação de um "novo cristo" extraterrestre que possui alguns seguidores ao redor do mundo. Acho que estão tentando me recrutar para a gênese da Nova Era kkkk...

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Sim. Esse conto é uma alusão bem evidente a StrangerThings. Não pude evitar.

sábado, 25 de junho de 2016

Bichos e mais bichos

Sonhei que tentava salvar um pequeno filhote cágado de um risco iminente. Infelizmente, não dependia apenas de mim a árdua missão de protegê-lo. Eu pedia ajuda a várias pessoas, inclusive conhecidos. Todos me ignoravam, e não se importavam com os riscos que eu mencionava. Eu gritava, chorava, ameaçava pedir auxílio de autoridades. Alguns riam de mim. Outros negavam ajuda. Outros mais me desafiavam. Não vi o desfecho da situação, mas o fato é que não consegui tirá-lo das mãos do meu inimigo. Lamentei, e segui meu curso. Comecei a dançar, triste e sozinha.
Enquanto eu dançava, tive a visão de dois crocodilos enormes. Eles me espreitavam, imersos em águas turvas.
O bom é que, para cada vez que sonho com qualquer situação de risco, lá está minha protetora e guia: a onça. Havia duas delas, poderosas, robustas e imponentes.
Isso definitivamente significa algo.

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Também ando sonhando com construções velhas. Com objetos pessoais danificados.
Deus me guarde.

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Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.
Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.
Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.
Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel.
Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia,.
Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.
Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti.
Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios.
Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação.
Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.
Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.
Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.
Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.
Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.
Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.
Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.

Salmos 91:1-16

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Vivendo... Aprendendo... Reaprendendo...

Lute apenas por lutar sem pensar em perda ou ganho, em alegria ou tristeza, em vitória ou em  derrota, pois, agindo desse modo, você nunca pecará. (...) quem segue por esta via de maneira resoluta possui a mente indivisa. Mas a mente do indeciso segue muitas direções. (...) O direito que é devido é o de cumprir a missão e não o de reclamar o resultado da ação. Não considere a si mesmo o objetivo dos seus atos nem se prenda à inação. (...) abandonando o desejo de vitória ou de derrota, execute o seu trabalho sem apego ao resultado. Neste mundo transitório quem não se deixa afetar pelo bem ou pelo mal que poderão sobrevir, sem louvá-lo ou maldizê-lo, já se encontra situado na consciência divina. Aquele que for capaz de retirar os sentidos de todos os seus objetos assim como a tartaruga recolhe os membros no casco, deve ser considerado um ser auto-realizado.

(Bhagavad Gita)

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“Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” 

(Marcos 8:36)

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Meio difícil associar um livro à outro, mas pra mim faz bastante sentido :)

quarta-feira, 2 de março de 2016

A água, a Onça e a Naja

Estávamos em um lugar secreto e incrivelmente belo. Uma paraíso em meio à mata fechada. Um riacho corria abundante sobre o terreno rochoso e as águas soavam como um mantra natural. Mas embora o cenário fosse estonteante, a atmosfera quente, e estivesse sempre envolvida pelos braços daquele que me ama, estava apreensiva. A noite estava vindo, e tínhamos de preparar abrigo. Aquela mata guardava perigos reais. Eu sabia que ali era o lar de uma onça. Podia ver seu vulto rápido por trás da vegetação.  Me identificava com ela. Respeitava e venerava aquele animal majestoso. Como se fizesse parte de mim. Mas também havia uma naja, que espreitava e sibilava em nossa direção. Desta eu tinha medo, mas não me retrai diante de sua presença. Reação tipicamente minha. Permaneci encarando o réptil e ele não nos atacou. O resto do sonho teve um caráter um tanto erótico, e prefiro não escrever sobre.

Analisando este sonho, extrai os elementos mais marcantes para análise:

- A ÁGUA: está associada à essência feminina, às emoções, ao lado yin da natureza humana. À receptividade, sentimento, proteção, segurança, afeto. Curiosamente, sentia que estava segura enquanto estivesse perto do riacho. 

- A ONÇA: é um dos animais que mais admiro e me identifico. É também um forte simbolismo para a essência feminina. Embora seja essencialmente solitária, a onça representa os instintos protetores, a força, a maternidade, reprodução e luta por território. Ela faz sua morada em locais próximos a fontes de água (olha só as confirmações do universo kkkk...). É um animal forte e com grande poder de ataque, uma vez que tem limitações anatômicas em relação aos outros felinos. Por isso, ela precisa ser certeira e fatal em seu ataque, uma vez que não consegue perseguir uma presa por muito tempo. Tem hábitos noturnos (outra "coincidência", pois "a noite estava vindo" ). 

- A NAJA: cobras em geral são animais estigmatizados em se tratar de sonho. É quase um senso comum afirmar que sonhar com esse animal místico é mau agouro. Desde os primórdios ela é sinônimo de engano, traição e ataques ocultos. Ela pode atacar de perto, mas também pode lançar sua peçonha de longe.  No sonho, ela apenas observava esperando o melhor momento para atacar. Segundo os interpretadores, ver uma cobra observando indica que a pessoa que sonha poderá sofrer o ataque inesperado de alguém que não é próximo seu, mas está na iminência de fazer o mal. Normalmente são pessoas que observam nossos declínios e ascensão. De acordo o nosso sucesso, aumentam ainda mais seu ódio. Um outro detalhe é que as najas são animais surdos. O truque dos encantadores consiste em embeber a flauta em urina de rato. Elas são guiadas pelo cheiro e pela vibração. Pode significar que alguém está estudando nossas características e copiando, com a finalidade de levar aquilo que nos pertence de maneira fácil e enganadora. 

- A REVELAÇÃO:
Inimigos querem me destruir, mas como uma onça, tenho a majestade, a força e autoridade em meu território. 
Ao digitar esse texto, atentei para uma música religiosa que estava tocando no som da loja. Meus ouvidos se abriram exatamente nesse trecho: 

"Se ferramenta contra ti foi preparada, fica tranquilo, Deus te livra da cilada."

Livrai-me, oh Deus, dos inimigos ocultos e dos declarados. Livrai-me de minhas próprias fraquezas e não me deixe ter medo. Livrai a mim e aqueles que amo também. Certa de Tua providência. Amém!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Escorpião

Achei essa descrição no site  Mistérios Antigos e achei muito "eu". Quase tudo bate :D Engraçado que há alguns anos, quando li pela primeira vez essa descrição, achei que metade das coisas não condiziam com minha personalidade. Acho que eu era um pequeno escorpiãozinho em formação. Agora tô crescendo, ficando mais forte, conhecedora de meus defeitos e atributos.

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Incapaz de viver muito tempo na calma, apaixonado por transformações, é ansioso e exigente. Dá  tudo de si em situações difíceis. Sente-se diferente dos outros, tem dificuldade em se integrar, ainda mais porque raramente está livre de tensão.

Lúcido, espírito penetrante, crítico e perspicaz. Percebe nos outros o "defeito da couraça".
Não gosta de ser contrariado, nem que indaguem dos seus motivos. Força situações, perspicaz, sutil, ardente, leal. Ajuda-se, se quiser, e aos outros. Vingativo, antagônico, sarcástico, violento. Bom julgamento. Também quer segurança emocional. Tudo ou nada.

Não esquece quem lhe ajuda, nem quem lhe prejudica.

Pode prejudicar a saúde com atividade derrotista, melancolia, excesso de trabalho ou de qualquer coisa. Poder de recuperação surpreendente. Garganta, nariz e órgãos reprodutores vulneráveis, varizes e hemorragias nasais.

Seus desafios são constantes, principalmente nas áreas financeiras e sexual. Deve aprender a dar, receber e compartilhar recursos e prazeres. Ambicioso não aparente, espera oportunidade e pega-a imediatamente. Se usar seu grande potencial pode tornar-se pessoa influente.

Corpo: Energia concentrada na expressão física, inquietação motora. Atrai acidentes e morte brusca. Propensões auto-destrutivas com grande poder regenerativo.

Psique: Ação das emoções sobre a base corporal. Inserção rebelde do ego aos contextos convencionais. Audácia provocativa; caráter anti-conformista e criativo. Temperamento vital-motor; humor paradoxal. Pensamento engenhoso, de fluxo intermitente e conteúdo experimental; concentração dispersiva, memória seletiva. Gostos elaborados, hábitos inusitados; moral transformadora. Impulsos primários de rebelião criativa. Tendência à imprudência.

Afetividade: Sensível e erótica. Sensualidade experimental intelectualizada. Paixões ardentes e possessivas; emoções e sentimentos poderosos e imaginativos. Busca do novo e impensado. Amor ciumento, obstinado e rancoroso.

Prevalecem a transmutação, a análise e a decomposição, o sentimento da finalidade, a ação passional no meio exterior.

Está ligado à ousadia, determinação, perspicácia e criatividade, mas também ao autoritarismo, angústia, revolta e sadomasoquismo.

Sua missão e seu Dom nesta vida
A Tí, Deus deu uma tarefa muito difícil. Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não te concedeu a permissão para falar sobre o que aprenderes. Muitas vezes te sentirás ofendido por aquilo que vês, e em tua dor te voltarás contra Deus, esquecendo que não é Ele, mas a perversão da Idéia Divina, o que te faz sofrer. Verás tanto e tanto do homem enquanto animal, e lutarás tanto com os instintos em Tí mesmo, que perderás o teu caminho; mas quando finalmente voltares, Deus terá para tí o dom supremo da finalidade.

Referência anatômica: genitais.
Remédio de fundo: calcaria sulfúrica.
Ervas harmonizantes: ginseng, guaraná, manjericão.

Incensos: Almíscar, Ópium e Eucalipto.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eloquências da alma

Alternativas que dignificam a existência do homem na terra: entregar-se por inteiro aos instintos ou alcançar a iluminação.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O chamado da selva

No fim daquela tarde cinza ela ouviu o chamado. Abandonou seu lar sem se despedir dos que ficaram. Não escreveu sequer uma nota. Lá deixou tudo que tinha: carro, celular, o extrato de contas a pagar. Deixou para trás sua caixa de recordações e até a mais íntima veste. Seguiu nua pela rodovia principal da cidade. Não demorou até que um coro de buzinas explodisse e uma dezena de carros parasse no acostamento da pista. Ela não parou. Continuou a caminhar em sua ausência de caminhos, completamente absorta aos flashs e gracejos despudorados.

Era fêmea feroz. Mais valente que qualquer um daqueles machos destituídos da alfa essência. Patéticos. Eles se limitavam a empunhar seus celulares, ao invés de lutar por um possível coito. Suas mãos fragilizadas pelos hábitos saudáveis da modernidade não eram aptas para tal. Para eles, mais valia o registro perfeito da nudez feminina que a satisfação do genuíno instinto. Ao fim daquele episódio, eles voltariam para o aconchego de suas casas, para suas esposas e famílias. Compartilhariam as gravações em suas redes sociais diretamente do conforto de seus banheiros assépticos. As nádegas sobre a porcelana fria dos aparelhos sanitários. Os membros flácidos entre as pernas desnudas.

Uma senhora religiosa tentou cobri-la com um manto, mas ela rejeitou. Não desejava aquele tipo de auxílio. Não queria mais se sujeitar aos princípios de vida em sociedade, seguir padrões de comportamento, aprisionar-se em vestimentas sob medida, esculpir um corpo desejável, conquistar um bom emprego, agir de forma conveniente, servir a um deus, construir uma família, pagar impostos, contribuir para o crescimento de sua nação. Não! Queria viver como os animais. Sem precisar maquiar os instintos para perpetuar a ilusão humana. Sem chamar de amor as estratégias da natureza.

Indignara-se sobre como o homem dificultara a própria vida na terra criando tantas nomenclaturas e padrões de comportamento, quando na verdade a vida deveria ser simples e natural. Enfurecera-se contra as amarras invisíveis criadas pelo próprio ser humano.

Cansara da interminável luta por domínio emocional, territorial e material. De treinar sua mente exausta para conquistar um espaço na Terra que sempre fora sua. Da obrigação de ter um guarda-roupa repleto de roupas para várias ocasiões. Para confraternizar-se com o próprio homem, que por baixo das vestes nada mais é que um agregado de músculos e água. Assim como ela.

Entendera que o ser humano de nada precisava além do que a natureza oferece gratuitamente. Os frutos das árvores, a água dos rios, a carne dos outros animais. Tudo orgânico, de fácil decomposição, transmutável em energia e adubo. Em contrapartida, o produto do ser humano é intragável pela terra. Ele abarrota o planeta com o lixo oriundo de suas criações aparentemente necessárias. Vai a um fast food e sai de lá com duas sacolas. Dentro de uma delas, um recipiente que comporta a comida, por vezes envolvida em outro saquinho protetor. Na outra, uma lata contendo qualquer bebida industrializada, canudos para não tocar a superfície com a boca, e copos para compartilhar o líquido. Lenços para segurar o alimento nas mãos, guardanapos para limpar os lábios. Ao fim de tudo, uma sacola para guardar o que sobrar. E o produto inútil oriundo de uma simples refeição parece deixar de existir ao entrar nas mágicas dimensões de uma lata de lixo. Mas ele não desaparece. Os homens que fecham os olhos para o sofrimento do planeta, dos animais racionais e irracionais. Continuam criando lixo, precificando o que é direito natural de todos, criando padrões de qualidade que tornam os alimentos cada vez mais caros inacessíveis. Delimitando territórios cuja área é bem superior ao que de fato, necessitam. Cortando árvores que abrigam milhares de animais para construir suas confortáveis residências para famílias de quatro ou cinco membros. Ora... Os mais agressivos leões conseguem viver e dormir lado a lado. Já o ser humano é tão repulsivo e hostil que precisa acomodar-se em cômodos separados por paredes.

Racionalizou que, embora os benefícios da ciência pareçam excelentes ao prolongar a existência do homem, tal avanço era equivocado e nocivo para todos os ecossistemas. Que o planeta não é capaz de suportar o ritmo de reprodução humano associado ao aumento da longevidade. Para tal, o ideal é que tivéssemos a expectativa de vida de um cão. No entanto, vivemos como tartarugas e nos reproduzimos como coelhos.

Ao perceber aquilo, passou a ver o que era real por trás de tantas ilusões. Despertara seu animal interior. Ouvira o chamado da selva. Tudo que parecia necessário e lógico caíra por terra naquela tarde cinza. E quando a noite veio, ela já era um animal completo. Não sucumbiria junto aos demais seres humanos. Não sufocaria o eco selvagem de seu peito. Tornou-se livre. E o único antídoto para aquilo era morte.


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Obs.: Desculpa, Jack London... Mas o único título que cabe a esse texto é esse.

ETERNA MÁGOA – poema de Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se a...