Tive um sonho horrível. Nele, eu era apenas observadora dos fatos. O protagonista era um assassino em série mentalmente perturbado. E depois de cometer seus diversos assassínios, ele ouviu um barulho em sua penumbrosa residência. Ele caminhou pelos cômodos daquela velha mansão, e ao descer as escadas deparou-se com a origem do barulho: uma mulher completamente nua que debatia-se contra o chão e paredes. Ela estava tendo relações sexuais com um ser inanimado, uma força invisível. Ela contorcia-se de uma forma horrenda, e eu soube que ela estava possuída por uma entidade maligna. Ela olhou para o rapaz assassino, e falou com uma voz grossíssima:
"Avise para sua mãe que ela tem um pacto com o mesmo que eu."
Achei esse sonho simplesmente pesado...
sábado, 9 de dezembro de 2017
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Sonho...
E em sonho estava numa bela e agradável praia, situada no fim do mundo. Nela viviam umas poucas pessoas em comunidade. Suas casinhas e barracas eram humildemente construídas com madeira e palha, cerca de dez palafitas sob finas pernas de madeira na beira do mar. Explicaram-me que aquela altura era necessária, pois o mar era bravo e ondas altíssimas invadiam a orla de forma inesperada. Uma hora estava tudo calmo e no momento seguinte era como se um monstro marítimo furioso despertasse, destruindo tudo com seus vagalhões. Era impossível prever.
Foi assim naquela manhã morna. O mar cristalino brilhava como diamantes ao sol. Conversávamos e comíamos frutos do mar, quando avistamos ao longe uma grande onda se erguer. Ela era maior que tudo. Era a maior onda que tinham visto desde então.
Instruídos pelos nativos, agarramo-nos cada um às vigas de carnaúba que sustentavam a palafita. Aguardamos a grande onda, que veio e esmurrou nossas costas com a força de um titã. Meu grito de pavor logo foi abafado pela água, que nos engoliu por completo. Tudo ficou azul, e eu via objetos sendo arrastados, passando por mim à toda velocidade. Temi que algum deles me atingisse mortalmente. Então fechei os olhos e aguardei passar.
Quando a água finalmente se retirou, eu e meu marido estávamos vivos, buscando o ar com olhos arregalados. Foi quando percebemos que outra onda se formava no horizonte.
Por algum motivo, ou uma coragem burra, resolvi encarar a próxima onda sob uma grande tábua de madeira. Assim o fiz, deitei-me sobre ela de barriga, segurando-me em suas bordas com braços abertos. Como um mártir na cruz, ou como a Rose em Titanic... A onda veio, e eu deslizei sobre ela usando a madeira como prancha.
Curiosamente, sobrevivi. A onda me levou à uma ilha, distante e escondida. A água era cristalina, mas me parecia perigosa. Senti medo e solidão. Saí com urgência e dificuldade da água. Para "subir" na ilha, tive que me erguer como quem sai de uma piscina. Em terra firme, percebi que não estava sozinha. Vi um crocodilo morto e muitos saguis. Depois notei a presença de pessoas, que pareciam foras-da-lei. Eram como guerrilheiros, integrantes das Farcs. Estive certa de que seria morta ou estuprada. No entanto, logo percebi que se tratava de fabricantes de dinheiro falso. Eles quiseram me recrutar para aquele trabalho ilícito. Prontamente aceitei, pois temi não ter escolha. Quis fugir, mas percebi que o mar raso e cristalino estava repleto de crocodilos de água salgada. Só podia estar na Austrália... Escondida, consegui ligar para a polícia e clamar por socorro.
De repente, apareceram milhares de cavaleiros na água. Desesperei-me pois cavalgavam entre crocodilos. Não demorou até que os répteis começassem a atacar as patas dos cavalos. E todos eles sucumbiram naquelas águas.
Sensação de mau agouro, exceto pelo pequeno macaco negro que me cumprimentou e brincou com meus dedos...
Não sei porque tenho sonhado tanto com isso. Sempre praia, água, ondas, tsunamis. Sempre crocodilos ou onças. Sempre...
Medo...
E em sonho estava numa bela e agradável praia, situada no fim do mundo. Nela viviam umas poucas pessoas em comunidade. Suas casinhas e barracas eram humildemente construídas com madeira e palha, cerca de dez palafitas sob finas pernas de madeira na beira do mar. Explicaram-me que aquela altura era necessária, pois o mar era bravo e ondas altíssimas invadiam a orla de forma inesperada. Uma hora estava tudo calmo e no momento seguinte era como se um monstro marítimo furioso despertasse, destruindo tudo com seus vagalhões. Era impossível prever.
Foi assim naquela manhã morna. O mar cristalino brilhava como diamantes ao sol. Conversávamos e comíamos frutos do mar, quando avistamos ao longe uma grande onda se erguer. Ela era maior que tudo. Era a maior onda que tinham visto desde então.
Instruídos pelos nativos, agarramo-nos cada um às vigas de carnaúba que sustentavam a palafita. Aguardamos a grande onda, que veio e esmurrou nossas costas com a força de um titã. Meu grito de pavor logo foi abafado pela água, que nos engoliu por completo. Tudo ficou azul, e eu via objetos sendo arrastados, passando por mim à toda velocidade. Temi que algum deles me atingisse mortalmente. Então fechei os olhos e aguardei passar.
Quando a água finalmente se retirou, eu e meu marido estávamos vivos, buscando o ar com olhos arregalados. Foi quando percebemos que outra onda se formava no horizonte.
Por algum motivo, ou uma coragem burra, resolvi encarar a próxima onda sob uma grande tábua de madeira. Assim o fiz, deitei-me sobre ela de barriga, segurando-me em suas bordas com braços abertos. Como um mártir na cruz, ou como a Rose em Titanic... A onda veio, e eu deslizei sobre ela usando a madeira como prancha.
Curiosamente, sobrevivi. A onda me levou à uma ilha, distante e escondida. A água era cristalina, mas me parecia perigosa. Senti medo e solidão. Saí com urgência e dificuldade da água. Para "subir" na ilha, tive que me erguer como quem sai de uma piscina. Em terra firme, percebi que não estava sozinha. Vi um crocodilo morto e muitos saguis. Depois notei a presença de pessoas, que pareciam foras-da-lei. Eram como guerrilheiros, integrantes das Farcs. Estive certa de que seria morta ou estuprada. No entanto, logo percebi que se tratava de fabricantes de dinheiro falso. Eles quiseram me recrutar para aquele trabalho ilícito. Prontamente aceitei, pois temi não ter escolha. Quis fugir, mas percebi que o mar raso e cristalino estava repleto de crocodilos de água salgada. Só podia estar na Austrália... Escondida, consegui ligar para a polícia e clamar por socorro.
De repente, apareceram milhares de cavaleiros na água. Desesperei-me pois cavalgavam entre crocodilos. Não demorou até que os répteis começassem a atacar as patas dos cavalos. E todos eles sucumbiram naquelas águas.
Sensação de mau agouro, exceto pelo pequeno macaco negro que me cumprimentou e brincou com meus dedos...
Não sei porque tenho sonhado tanto com isso. Sempre praia, água, ondas, tsunamis. Sempre crocodilos ou onças. Sempre...
Medo...
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Se me esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda, “Poemas de Amor de Pablo Neruda”
---
Simplesmente lindo este poema *-*
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda, “Poemas de Amor de Pablo Neruda”
---
Simplesmente lindo este poema *-*
nada
Estou certa de que há algo errado com este mundo. Não é por
acaso que ele não é uma forma perfeita... que caminhe lento em elipses
tortas... que gire desconsertado em seu eixo, como uma engrenagem danificada. O
planeta há muito descarrilou de sua órbita. Existem erros incorrigíveis, coisas
que não podem ser consertadas. Eu sou uma delas e estou prestes a não conseguir
mais. É um quebra cabeças onde faltam muitas peças: essa vida. Pra piorar, a
caixa está repleta de peças falsas, que jamais se encaixariam em qualquer
lugar. Sou uma dessas peças. Meus encaixes estão completamente desgastados das tentativas
falhas de compor uma imagem perfeita. Como fazer de mim uma nova forma sem parecer
uma aberração? Como aparar as arestas sem que eu me esvaia em sangue e morra
louca? Temo já estar louca, e sangrando,
e sujando tudo. Eu já estou, sim. Estou cansada, mal posso lutar contra mim.
Tudo causa câncer, até respirar. Eu posso ouvir os gemidos de quem está em dor,
numa distância daqui até o Japão. Posso ouvir o crepitar do fogo na mata, o
choro de uma baleia, o quebrar de ossos. Posso ver e rever as injustiças em um
loop eterno. Não consigo fechar os olhos. Não possuo mais pálpebras. O inferno
é aqui? Não sei onde está o controle-remoto. Não posso mudar o mundo, não. Não
posso mudar a mim mesma. Não consigo tocar o dedo do pé na minha nuca, ou a
barriga em meus joelhos. Não consigo rodopiar sem ficar tonta. Meu olhar não
chega ao ponto fixo na parede antes do resto do corpo. Meus membros estão
flácidos, mas não me resta tempo pra lutar contra o tempo. Eu sou o desencaixe.
A sede de justiça, que não morre nunca. Por pura covardia. Sou covarde, de
mente barroca. Sou boa, eu sei que sou. Sou uma pessoa boa. Sou uma pessoa boa.
Sou uma pessoa boa. Mas não sou desse mundo. Não pertenço, não me encaixo, não
compreendo. Porque minha mente processa tudo do jeito que deveria ser, mas
simplesmente não é. Eu sei de tudo, mas não sei de nada. Falhei com muitos, mas
foi pouco perto de como falhei comigo mesma. Como me iludi. Como fui vítima de
meus anseios e segui sorrindo pela trilha da utopia. Dos meus sonhos, meus
maiores algozes. Sou pequena. Sou uma mosca. Sou o vira-latas que passa fome,
que pega chuva, que foge dos homens e às vezes morde. Sou menor que o nada que
está ao meu alcance. Sou o Layne Staley, de olhos fechados sempre. Sou o
unplugged de Alice in Chains... Sou o cansaço. Sou o morrer na praia. Sou o correr correr, sem chegar a lugar nenhum. Não sou nada. Eu não sou nada. Não passo de um
nada.
quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Dream of flood
"As the water come rushing in...
As the water come rushing over...
Dream of flood..."
Sonho com grandes inundações. Na verdade, sonho com terríveis tsunamis. Já foram três sonhos no total. Em um momento estou numa bela praia, em um apartamento ou numa casa, quando vejo de súbito uma imensa onda se formar no horizonte. Eu sei bem o que está por vir. Rapidamente, convoco todos que estão comigo para entrarmos no abrigo mais próximo. Se agir com precisão, sei que o manto impetuoso de mar não matará a todos.
Seguro quem eu amo pela mão. Com a outra, coloco um gato em meu ombro ou protejo uma criança.
"Rápido, subam o mais rápido que puderem. Apeguem-se firmemente às estruturas sólidas." - digo ao meu marido, aos meus amigos.
E enquanto me protejo, assisto pela janela o vagalhão adquirir estatura colossal. Um misto de pavor e admiração inunda meu corpo por inteiro. É realmente aterrorizante. A onda, mais alta que qualquer coisa existente na terra atinge nosso abrigo e toda a estrutura treme com o choque. O estrondo é sinistro e reverbera em nosso corpo, nossa alma. Através de uma pequena janela, assistimos de olhos arregalados tudo de repente se tornar azul, e rezamos para que o frágil vidro não se rompa. E ele resiste. E eu acordo... Como um filme interrompido no grande clímax...
É sempre perto do amanhecer quando esse sonho vem. E depois eu acordo, ainda com medo. Ainda maravilhada com todo aquele azul. A expressão em meu rosto é de "ufa...". Passo a costa da mão sobre testa, como se nela houvesse suor. Digo ao meu marido que sobrevivemos à um tsunami, mas ele ainda está sonolento demais pra entender. Então eu me levanto meio eufórica, meio orgulhosa, meio com receio de que esse sonho seja uma premonição.
Dificilmente um tsunami chegaria à minha cidade, mas poderia com algum algum azar devastar o litoral de meu estado, que é o cenário do sonho. No entanto, meu receio é que esses conhos consecutivos sejam o presságio de tempos difíceis para mim, ou uma alusão às inundações emocionais que vez ou outra me atingem em cheio. Meu signo é da água, e o excesso dela reflete bem o meu sentimentalismo sempre exagerado.
Prazer, meu nome é Jessica, mas pode me chamar de Drama Queen.
Mas de certa forma me tranquilizo, pois eu sempre sobrevivo no fim.
---
05/09: Continuo sonhando com tsunamis. Mas dessa vez, a onda já tinha passado quando cheguei. O mar engolira o lugar por inteiro e depois regurgitara tudo envolto em lama marrom. Outrora sólida, agora a cidade não passava de uma frágil maquete destruída por um arquiteto furioso. Diogo e eu caminhávamos entre o vômito do mar, escolhendo bem os passos entre escombros e poças. Abrigamo-nos em uma pequena cabana parcialmente destruída e com vista para oceano. Sentamo-nos e aconchegamo-nos um no outro, ao som do initerrupto gotejar. Relâmpagos impetuosos cortavam o céu cinzento, e seus punhos de eletricidade esmurravam a terra fazendo o chão tremer. Fumaça subia da terra, como se a Natureza resfolegasse, completamente farta da existência humana.
---
Coincidência ou não, esse último relato foi a quarta vez que sonhei com tsunami de agosto pra cá... E olha só o que tá acontecendo no mundo?
Meu nome é Jessica, mas pode me chamar de "Cassandra, a Profetiza"
Misericórdia, Deus :(
As the water come rushing over...
Dream of flood..."
Sonho com grandes inundações. Na verdade, sonho com terríveis tsunamis. Já foram três sonhos no total. Em um momento estou numa bela praia, em um apartamento ou numa casa, quando vejo de súbito uma imensa onda se formar no horizonte. Eu sei bem o que está por vir. Rapidamente, convoco todos que estão comigo para entrarmos no abrigo mais próximo. Se agir com precisão, sei que o manto impetuoso de mar não matará a todos.
Seguro quem eu amo pela mão. Com a outra, coloco um gato em meu ombro ou protejo uma criança.
"Rápido, subam o mais rápido que puderem. Apeguem-se firmemente às estruturas sólidas." - digo ao meu marido, aos meus amigos.
E enquanto me protejo, assisto pela janela o vagalhão adquirir estatura colossal. Um misto de pavor e admiração inunda meu corpo por inteiro. É realmente aterrorizante. A onda, mais alta que qualquer coisa existente na terra atinge nosso abrigo e toda a estrutura treme com o choque. O estrondo é sinistro e reverbera em nosso corpo, nossa alma. Através de uma pequena janela, assistimos de olhos arregalados tudo de repente se tornar azul, e rezamos para que o frágil vidro não se rompa. E ele resiste. E eu acordo... Como um filme interrompido no grande clímax...
É sempre perto do amanhecer quando esse sonho vem. E depois eu acordo, ainda com medo. Ainda maravilhada com todo aquele azul. A expressão em meu rosto é de "ufa...". Passo a costa da mão sobre testa, como se nela houvesse suor. Digo ao meu marido que sobrevivemos à um tsunami, mas ele ainda está sonolento demais pra entender. Então eu me levanto meio eufórica, meio orgulhosa, meio com receio de que esse sonho seja uma premonição.
Dificilmente um tsunami chegaria à minha cidade, mas poderia com algum algum azar devastar o litoral de meu estado, que é o cenário do sonho. No entanto, meu receio é que esses conhos consecutivos sejam o presságio de tempos difíceis para mim, ou uma alusão às inundações emocionais que vez ou outra me atingem em cheio. Meu signo é da água, e o excesso dela reflete bem o meu sentimentalismo sempre exagerado.
Prazer, meu nome é Jessica, mas pode me chamar de Drama Queen.
Mas de certa forma me tranquilizo, pois eu sempre sobrevivo no fim.
---
05/09: Continuo sonhando com tsunamis. Mas dessa vez, a onda já tinha passado quando cheguei. O mar engolira o lugar por inteiro e depois regurgitara tudo envolto em lama marrom. Outrora sólida, agora a cidade não passava de uma frágil maquete destruída por um arquiteto furioso. Diogo e eu caminhávamos entre o vômito do mar, escolhendo bem os passos entre escombros e poças. Abrigamo-nos em uma pequena cabana parcialmente destruída e com vista para oceano. Sentamo-nos e aconchegamo-nos um no outro, ao som do initerrupto gotejar. Relâmpagos impetuosos cortavam o céu cinzento, e seus punhos de eletricidade esmurravam a terra fazendo o chão tremer. Fumaça subia da terra, como se a Natureza resfolegasse, completamente farta da existência humana.
---
Coincidência ou não, esse último relato foi a quarta vez que sonhei com tsunami de agosto pra cá... E olha só o que tá acontecendo no mundo?
Meu nome é Jessica, mas pode me chamar de "Cassandra, a Profetiza"
Misericórdia, Deus :(
segunda-feira, 24 de julho de 2017
Sobre a morte
- Pai, perdoa a alma dos suicidas. Tu conheces a natureza humana. Tu nos criaste, sabes de nossas fraquezas. O suicídio é o maior grito de sofrimento de um ser. - pedi, completamente consternada pela morte de Chester Bennington e de tantos outros desistentes com os quais me identificava.
- Filha, muitos deles jamais pediram a minha ajuda. Muitos deles me negaram e blasfemaram.
- Somos ignorantes, Pai. Muitas vezes agimos sem saber, sem temer, sem acreditar. Parte de tua criação não é capaz de ver o invisível.
- Filha, por acaso conheces o íntimo de cada ser? Lembra-te das vezes que amaldiçoaste teus irmãos, afirmando que todos (sem exceção) tinham irremediável peçonha dentro de si? Quantas vezes choraste amargamente ao testemunhar atos vis e cruéis por eles cometidos? Quantas vezes pedistes a mim que os castigasse até a quarta geração?
Envergonhei-me, sem me arrepender. Todos tinham merecido aqueles sortilégios.
- Peço então que perdoe apenas os bons. Sei que a justiça humana não passa de "trapo de imundície". Mas tu sabes, Pai. Tu conheces o coração de todos. Sabes diferenciar os que não suportaram coexistir com a própria imundície daqueles que foram vítimas do peso esmagador do mundo.
- E qual medida devo usar para julgar os homens? A tua?
Embora considerasse minha "balança" próximo de justa, calei-me diante daquela pergunta retórica. Acredito que Deus já tenha todas as respostas. E qualquer argumento que eu usasse, soaria muito prepotente. As escrituras condenam os suicidas, mas acima de todas as coisas está a Justiça de Deus. Acredito que Ele possa perdoar qualquer transgressão, mas este é um mistério que não me será revelado enquanto meus pulmões viciados em oxigênio continuarem buscando o ar.
Enquanto isso, continuarei comovida por alguns. O suicídio é um ato de extrema coragem. É a negação de milhares de possibilidades, por falta de fé no futuro, pela ausência de qualquer relevância no presente. É o fundo do poço, do qual muitos falam, mas poucos chegaram. É cair num lugar de escuridão total. É tatear em volta e só encontrar um círculo infinito de pedras frias, indissolúveis e rígidas. É pisar sobre um chão lamacento repleto de vermes e anelídeos e não conseguir tirar os pés do chão, num misto de asco e medo.
"Impressionada sem cessar com a morte" - assim me descrevo. Ela me intriga desde cedo. Lembro-me de analisar o corpo decomposto de um gato morto quando era pequena. Quando vim a entender o que aquilo significada, meu espírito se abateu. Uma década e meia depois, a morte de animais e algumas pessoas ainda me comovia muito. No entanto, passei a pensar na minha própria morte como algo banal. Pensava sobre como eu poderia perfeitamente explodir uma bomba de hidrogênio que dizimasse toda a humanidade, em nome de um bem maior. Para que toda a maldade, todo o sofrimento, desigualdades a dor fossem pelos ares. Para rachar a terra mandar seu conteúdo podre para o ralo do universo, como um ovo estragado que chocaria serpentes.
Hoje penso sobre como eu daria minha vida pela pessoa que mais amo. Que prefiro ir antes a ter que presenciar sua partida. De certa forma, você só se apega à vida quando sente que ela não te pertence mais. Quando um outro ser depende de você. Quando sabe que sua partida antecipada pode arruinar a existência de alguém que você estima mais que tudo. Mas a vida em si, de nada vale, quando é a única coisa que se tem.
- Filha, muitos deles jamais pediram a minha ajuda. Muitos deles me negaram e blasfemaram.
- Somos ignorantes, Pai. Muitas vezes agimos sem saber, sem temer, sem acreditar. Parte de tua criação não é capaz de ver o invisível.
- Filha, por acaso conheces o íntimo de cada ser? Lembra-te das vezes que amaldiçoaste teus irmãos, afirmando que todos (sem exceção) tinham irremediável peçonha dentro de si? Quantas vezes choraste amargamente ao testemunhar atos vis e cruéis por eles cometidos? Quantas vezes pedistes a mim que os castigasse até a quarta geração?
Envergonhei-me, sem me arrepender. Todos tinham merecido aqueles sortilégios.
- Peço então que perdoe apenas os bons. Sei que a justiça humana não passa de "trapo de imundície". Mas tu sabes, Pai. Tu conheces o coração de todos. Sabes diferenciar os que não suportaram coexistir com a própria imundície daqueles que foram vítimas do peso esmagador do mundo.
- E qual medida devo usar para julgar os homens? A tua?
Embora considerasse minha "balança" próximo de justa, calei-me diante daquela pergunta retórica. Acredito que Deus já tenha todas as respostas. E qualquer argumento que eu usasse, soaria muito prepotente. As escrituras condenam os suicidas, mas acima de todas as coisas está a Justiça de Deus. Acredito que Ele possa perdoar qualquer transgressão, mas este é um mistério que não me será revelado enquanto meus pulmões viciados em oxigênio continuarem buscando o ar.
Enquanto isso, continuarei comovida por alguns. O suicídio é um ato de extrema coragem. É a negação de milhares de possibilidades, por falta de fé no futuro, pela ausência de qualquer relevância no presente. É o fundo do poço, do qual muitos falam, mas poucos chegaram. É cair num lugar de escuridão total. É tatear em volta e só encontrar um círculo infinito de pedras frias, indissolúveis e rígidas. É pisar sobre um chão lamacento repleto de vermes e anelídeos e não conseguir tirar os pés do chão, num misto de asco e medo.
"Impressionada sem cessar com a morte" - assim me descrevo. Ela me intriga desde cedo. Lembro-me de analisar o corpo decomposto de um gato morto quando era pequena. Quando vim a entender o que aquilo significada, meu espírito se abateu. Uma década e meia depois, a morte de animais e algumas pessoas ainda me comovia muito. No entanto, passei a pensar na minha própria morte como algo banal. Pensava sobre como eu poderia perfeitamente explodir uma bomba de hidrogênio que dizimasse toda a humanidade, em nome de um bem maior. Para que toda a maldade, todo o sofrimento, desigualdades a dor fossem pelos ares. Para rachar a terra mandar seu conteúdo podre para o ralo do universo, como um ovo estragado que chocaria serpentes.
Hoje penso sobre como eu daria minha vida pela pessoa que mais amo. Que prefiro ir antes a ter que presenciar sua partida. De certa forma, você só se apega à vida quando sente que ela não te pertence mais. Quando um outro ser depende de você. Quando sabe que sua partida antecipada pode arruinar a existência de alguém que você estima mais que tudo. Mas a vida em si, de nada vale, quando é a única coisa que se tem.
segunda-feira, 17 de julho de 2017
Escravos das próprias conquistas, parte 1
"Certo agricultor me diz: "Não se pode viver só à base de alimentos vegetais porque não fornecem matéria-prima para os ossos", e de acordo com isso dedica religiosamente parte do dia a suprir essa deficiência em seu sistema e enquanto fala, vai caminhando o tempo todo atrás de bois que, com ossos feitos de vegetais, arrastam às sacudidelas, ele e o arado pesadão, vencendo todos os
obstáculos. Há coisas verdadeiramente necessárias à vida em algumas classes sociais mais desassistidas e enfermas, enquanto que em outras são supérfluas e em terceiras, desconhecidas.
(...)
Penso que podemos, sem correr risco, ser bem mais confiantes, abrindo mão de tanta atenção conosco e aplicando-a alhures. A natureza está bem ajustada, quer à nossa fraqueza, quer à nossa força. A incessante ansiedade e tensão de alguns é quase uma forma incurável de doença. Temos a tendência de exagerar a importância de qualquer trabalho, contudo quanto deixamos de fazer, ou o que aconteceria se adoecêssemos? Como nos fiscalizamos, determinados a não viver pela fé sempre que podemos evitá-la! O dia inteirinho de prontidão, quando chega a noite rezamos as orações sem ânimo e nos entregamos a dúvidas. Somos completa e sinceramente forçados a viver reverenciando nossa vida e negando a possibilidade de modificação. Dizemos ser esta a única maneira, mas há tantas quantos os raios que podem ser desenhados a partir de um centro.
(...)
Reis e rainhas que usam um traje apenas uma vez, feito sob medida pelo alfaiate ou costureiro de Sua
Majestade, desconhecem o conforto de continuar vestindo uma roupa que assenta bem, e nessa condição se equiparam a cabides de madeira em que se penduram roupas limpas. Homem nenhum
caiu no meu conceito por ter um remendo na roupa, mesmo assim tenho certeza de que comumente há maior preocupação em estar na moda, com roupas limpas e sem remendos do que em ter a consciência tranqüila. Até que ponto os homens manteriam a sua posição social caso fossem despidos, eis uma questão interessante. Acaso poderíeis, numa situação dessas, apontar com
segurança num grupo de pessoas civilizadas, quais as que pertencem à classe privilegiada?
(...)
Em tempos idos, quando ganhar a vida de um modo honesto, com disponibilidade para cumprir projetos meus, era assunto que me atormentava ainda mais que agora, porque lamentavelmente
tornei-me um tanto insensível, costumava reparar numa grande caixa de madeira, cerca de dois metros de comprimento por um de largura, que ficava perto da estrada de ferro e servia como depósito para as ferramentas dos operários durante a noite; veio-me então a idéia de que qualquer homem em dificuldade financeira poderia obtê-la por um dólar e depois de aí perfurar alguns
orifícios para ventilação, instalar-se nela quando chovesse ou viesse a noite, e uma vez a tampa trancada, gozar enfim de liberdade para amar ou espairecer o espírito. Tal solução não me pareceu a pior, nem de modo algum uma alternativa desprezível. A pessoa poderia deitar-se e levantar-se a hora que bem entendesse, sair de casa sem proprietário no seu encalço exigindo-lhe o aluguel. Muitos
homens que não morreriam de frio numa caixa dessas se atormentam até a hora da morte para pagar o aluguel de outra apenas maior e mais luxuosa
Entre os selvagens toda família possui um abrigo da melhor qualidade, suficiente para as necessidades mais ordinárias e simples. Contudo suponho ser razoável ao afirmar que, embora os pássaros tenham seus ninhos, as raposas suas tocas e os selvagens suas cabanas, na sociedade civilizada moderna, não mais que metade das famílias dispõe de moradia própria. Nas grandes cidades e nas capitais, onde predomina a civilização, a percentagem dos que possuem casa própria é mínima. A esmagadora maioria paga por esse agasalho exterior, indispensável durante o verão e o inverno, uma taxa anual que daria para comprar um povoado de cabanas indígenas e que apenas serve para manter pobres seus moradores a vida inteira. Não insistirei sobre a desvantagem que consiste em alugar em vez de adquirir, mas é evidente que o índio tem casa própria porque lhe custa pouco,
enquanto que o civilizado geralmente aluga porque não tem condições financeiras seja para comprá-la, seja para a longo prazo alugar coisa melhor. Alguém pode retrucar que, com o simples pagamento de uma taxa, o homem civilizado pobre garante uma moradia que é um palácio comparada à dos índios. Um aluguel anual de vinte e cinco a cem dólares (são estes os preços no país) confere ao inquilino o direito de beneficiar-se do progresso de séculos: cômodos espaçosos, paredes pintadas ou revestidas de papel, lareira Rumford, estuque, persianas, encanamento de cobre, fechadura com mola, adega ampla e muitas outras novidades. Entretanto como se explica que o homem civilizado usufruindo todas essas coisas seja tido por pobre, enquanto que o selvagem, à falta de todas elas, seja rico em sua condição? Se se afirma que a civilização constitui de fato um progresso na condição
humana — e eu em particular não discordo disso, embora somente o sábio aproveite-lhe as vantagens — deve-se demonstrar que a civilização produziu moradias melhores sem torná-las mais dispendiosas. Não resta dúvida que se pretendeu nos favorecer ao se institucionalizar a vida do homem civilizado, fazendo com que a do indivíduo seja em grande medida absorvida, tendo em vista a preservação e o aperfeiçoamento da raça. Desejo, porém, mostrar o sacrifício que atualmente essa orientação acarreta e sugerir a possibilidade de uma vida que reúna todas as vantagens sem a
contrapartida das desvantagens.
O agricultor tenta resolver o problema da subsistência através de uma fórmula
mais complicada que o próprio problema. Com habilidade consumada armou o
laço para alcançar conforto e independência, mas ao voltar-se viu-se de pés
atados na própria armadilha. Eis a razão por que é pobre; e por motivos
semelhantes é que todos nós, embora cercados de luxo, somos pobres em relação
a mil confortos contraditórios...
E quando afinal o agricultor consegue sua casa, pode por causa dela estar mais
pobre em vez de mais rico, e a casa ter se tornado a dona dele."
E dado que os objetivos do homem civilizado não valem mais que os do selvagem, e que emprega a maior parte da sua vida na simples obtenção de necessidades grosseiras e confortos, por que há de ter moradia melhor que a do selvagem?
Walden ou A Vida nos Bosques (Henry David Thoreau)
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