quinta-feira, 28 de abril de 2016

Vivendo... Aprendendo... Reaprendendo...

Lute apenas por lutar sem pensar em perda ou ganho, em alegria ou tristeza, em vitória ou em  derrota, pois, agindo desse modo, você nunca pecará. (...) quem segue por esta via de maneira resoluta possui a mente indivisa. Mas a mente do indeciso segue muitas direções. (...) O direito que é devido é o de cumprir a missão e não o de reclamar o resultado da ação. Não considere a si mesmo o objetivo dos seus atos nem se prenda à inação. (...) abandonando o desejo de vitória ou de derrota, execute o seu trabalho sem apego ao resultado. Neste mundo transitório quem não se deixa afetar pelo bem ou pelo mal que poderão sobrevir, sem louvá-lo ou maldizê-lo, já se encontra situado na consciência divina. Aquele que for capaz de retirar os sentidos de todos os seus objetos assim como a tartaruga recolhe os membros no casco, deve ser considerado um ser auto-realizado.

(Bhagavad Gita)

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“Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” 

(Marcos 8:36)

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Meio difícil associar um livro à outro, mas pra mim faz bastante sentido :)

quarta-feira, 2 de março de 2016

A água, a Onça e a Naja

Estávamos em um lugar secreto e incrivelmente belo. Uma paraíso em meio à mata fechada. Um riacho corria abundante sobre o terreno rochoso e as águas soavam como um mantra natural. Mas embora o cenário fosse estonteante, a atmosfera quente, e estivesse sempre envolvida pelos braços daquele que me ama, estava apreensiva. A noite estava vindo, e tínhamos de preparar abrigo. Aquela mata guardava perigos reais. Eu sabia que ali era o lar de uma onça. Podia ver seu vulto rápido por trás da vegetação.  Me identificava com ela. Respeitava e venerava aquele animal majestoso. Como se fizesse parte de mim. Mas também havia uma naja, que espreitava e sibilava em nossa direção. Desta eu tinha medo, mas não me retrai diante de sua presença. Reação tipicamente minha. Permaneci encarando o réptil e ele não nos atacou. O resto do sonho teve um caráter um tanto erótico, e prefiro não escrever sobre.

Analisando este sonho, extrai os elementos mais marcantes para análise:

- A ÁGUA: está associada à essência feminina, às emoções, ao lado yin da natureza humana. À receptividade, sentimento, proteção, segurança, afeto. Curiosamente, sentia que estava segura enquanto estivesse perto do riacho. 

- A ONÇA: é um dos animais que mais admiro e me identifico. É também um forte simbolismo para a essência feminina. Embora seja essencialmente solitária, a onça representa os instintos protetores, a força, a maternidade, reprodução e luta por território. Ela faz sua morada em locais próximos a fontes de água (olha só as confirmações do universo kkkk...). É um animal forte e com grande poder de ataque, uma vez que tem limitações anatômicas em relação aos outros felinos. Por isso, ela precisa ser certeira e fatal em seu ataque, uma vez que não consegue perseguir uma presa por muito tempo. Tem hábitos noturnos (outra "coincidência", pois "a noite estava vindo" ). 

- A NAJA: cobras em geral são animais estigmatizados em se tratar de sonho. É quase um senso comum afirmar que sonhar com esse animal místico é mau agouro. Desde os primórdios ela é sinônimo de engano, traição e ataques ocultos. Ela pode atacar de perto, mas também pode lançar sua peçonha de longe.  No sonho, ela apenas observava esperando o melhor momento para atacar. Segundo os interpretadores, ver uma cobra observando indica que a pessoa que sonha poderá sofrer o ataque inesperado de alguém que não é próximo seu, mas está na iminência de fazer o mal. Normalmente são pessoas que observam nossos declínios e ascensão. De acordo o nosso sucesso, aumentam ainda mais seu ódio. Um outro detalhe é que as najas são animais surdos. O truque dos encantadores consiste em embeber a flauta em urina de rato. Elas são guiadas pelo cheiro e pela vibração. Pode significar que alguém está estudando nossas características e copiando, com a finalidade de levar aquilo que nos pertence de maneira fácil e enganadora. 

- A REVELAÇÃO:
Inimigos querem me destruir, mas como uma onça, tenho a majestade, a força e autoridade em meu território. 
Ao digitar esse texto, atentei para uma música religiosa que estava tocando no som da loja. Meus ouvidos se abriram exatamente nesse trecho: 

"Se ferramenta contra ti foi preparada, fica tranquilo, Deus te livra da cilada."

Livrai-me, oh Deus, dos inimigos ocultos e dos declarados. Livrai-me de minhas próprias fraquezas e não me deixe ter medo. Livrai a mim e aqueles que amo também. Certa de Tua providência. Amém!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Escorpião

Achei essa descrição no site  Mistérios Antigos e achei muito "eu". Quase tudo bate :D Engraçado que há alguns anos, quando li pela primeira vez essa descrição, achei que metade das coisas não condiziam com minha personalidade. Acho que eu era um pequeno escorpiãozinho em formação. Agora tô crescendo, ficando mais forte, conhecedora de meus defeitos e atributos.

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Incapaz de viver muito tempo na calma, apaixonado por transformações, é ansioso e exigente. Dá  tudo de si em situações difíceis. Sente-se diferente dos outros, tem dificuldade em se integrar, ainda mais porque raramente está livre de tensão.

Lúcido, espírito penetrante, crítico e perspicaz. Percebe nos outros o "defeito da couraça".
Não gosta de ser contrariado, nem que indaguem dos seus motivos. Força situações, perspicaz, sutil, ardente, leal. Ajuda-se, se quiser, e aos outros. Vingativo, antagônico, sarcástico, violento. Bom julgamento. Também quer segurança emocional. Tudo ou nada.

Não esquece quem lhe ajuda, nem quem lhe prejudica.

Pode prejudicar a saúde com atividade derrotista, melancolia, excesso de trabalho ou de qualquer coisa. Poder de recuperação surpreendente. Garganta, nariz e órgãos reprodutores vulneráveis, varizes e hemorragias nasais.

Seus desafios são constantes, principalmente nas áreas financeiras e sexual. Deve aprender a dar, receber e compartilhar recursos e prazeres. Ambicioso não aparente, espera oportunidade e pega-a imediatamente. Se usar seu grande potencial pode tornar-se pessoa influente.

Corpo: Energia concentrada na expressão física, inquietação motora. Atrai acidentes e morte brusca. Propensões auto-destrutivas com grande poder regenerativo.

Psique: Ação das emoções sobre a base corporal. Inserção rebelde do ego aos contextos convencionais. Audácia provocativa; caráter anti-conformista e criativo. Temperamento vital-motor; humor paradoxal. Pensamento engenhoso, de fluxo intermitente e conteúdo experimental; concentração dispersiva, memória seletiva. Gostos elaborados, hábitos inusitados; moral transformadora. Impulsos primários de rebelião criativa. Tendência à imprudência.

Afetividade: Sensível e erótica. Sensualidade experimental intelectualizada. Paixões ardentes e possessivas; emoções e sentimentos poderosos e imaginativos. Busca do novo e impensado. Amor ciumento, obstinado e rancoroso.

Prevalecem a transmutação, a análise e a decomposição, o sentimento da finalidade, a ação passional no meio exterior.

Está ligado à ousadia, determinação, perspicácia e criatividade, mas também ao autoritarismo, angústia, revolta e sadomasoquismo.

Sua missão e seu Dom nesta vida
A Tí, Deus deu uma tarefa muito difícil. Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não te concedeu a permissão para falar sobre o que aprenderes. Muitas vezes te sentirás ofendido por aquilo que vês, e em tua dor te voltarás contra Deus, esquecendo que não é Ele, mas a perversão da Idéia Divina, o que te faz sofrer. Verás tanto e tanto do homem enquanto animal, e lutarás tanto com os instintos em Tí mesmo, que perderás o teu caminho; mas quando finalmente voltares, Deus terá para tí o dom supremo da finalidade.

Referência anatômica: genitais.
Remédio de fundo: calcaria sulfúrica.
Ervas harmonizantes: ginseng, guaraná, manjericão.

Incensos: Almíscar, Ópium e Eucalipto.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eloquências da alma

Alternativas que dignificam a existência do homem na terra: entregar-se por inteiro aos instintos ou alcançar a iluminação.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O chamado da selva

No fim daquela tarde cinza ela ouviu o chamado. Abandonou seu lar sem se despedir dos que ficaram. Não escreveu sequer uma nota. Lá deixou tudo que tinha: carro, celular, o extrato de contas a pagar. Deixou para trás sua caixa de recordações e até a mais íntima veste. Seguiu nua pela rodovia principal da cidade. Não demorou até que um coro de buzinas explodisse e uma dezena de carros parasse no acostamento da pista. Ela não parou. Continuou a caminhar em sua ausência de caminhos, completamente absorta aos flashs e gracejos despudorados.

Era fêmea feroz. Mais valente que qualquer um daqueles machos destituídos da alfa essência. Patéticos. Eles se limitavam a empunhar seus celulares, ao invés de lutar por um possível coito. Suas mãos fragilizadas pelos hábitos saudáveis da modernidade não eram aptas para tal. Para eles, mais valia o registro perfeito da nudez feminina que a satisfação do genuíno instinto. Ao fim daquele episódio, eles voltariam para o aconchego de suas casas, para suas esposas e famílias. Compartilhariam as gravações em suas redes sociais diretamente do conforto de seus banheiros assépticos. As nádegas sobre a porcelana fria dos aparelhos sanitários. Os membros flácidos entre as pernas desnudas.

Uma senhora religiosa tentou cobri-la com um manto, mas ela rejeitou. Não desejava aquele tipo de auxílio. Não queria mais se sujeitar aos princípios de vida em sociedade, seguir padrões de comportamento, aprisionar-se em vestimentas sob medida, esculpir um corpo desejável, conquistar um bom emprego, agir de forma conveniente, servir a um deus, construir uma família, pagar impostos, contribuir para o crescimento de sua nação. Não! Queria viver como os animais. Sem precisar maquiar os instintos para perpetuar a ilusão humana. Sem chamar de amor as estratégias da natureza.

Indignara-se sobre como o homem dificultara a própria vida na terra criando tantas nomenclaturas e padrões de comportamento, quando na verdade a vida deveria ser simples e natural. Enfurecera-se contra as amarras invisíveis criadas pelo próprio ser humano.

Cansara da interminável luta por domínio emocional, territorial e material. De treinar sua mente exausta para conquistar um espaço na Terra que sempre fora sua. Da obrigação de ter um guarda-roupa repleto de roupas para várias ocasiões. Para confraternizar-se com o próprio homem, que por baixo das vestes nada mais é que um agregado de músculos e água. Assim como ela.

Entendera que o ser humano de nada precisava além do que a natureza oferece gratuitamente. Os frutos das árvores, a água dos rios, a carne dos outros animais. Tudo orgânico, de fácil decomposição, transmutável em energia e adubo. Em contrapartida, o produto do ser humano é intragável pela terra. Ele abarrota o planeta com o lixo oriundo de suas criações aparentemente necessárias. Vai a um fast food e sai de lá com duas sacolas. Dentro de uma delas, um recipiente que comporta a comida, por vezes envolvida em outro saquinho protetor. Na outra, uma lata contendo qualquer bebida industrializada, canudos para não tocar a superfície com a boca, e copos para compartilhar o líquido. Lenços para segurar o alimento nas mãos, guardanapos para limpar os lábios. Ao fim de tudo, uma sacola para guardar o que sobrar. E o produto inútil oriundo de uma simples refeição parece deixar de existir ao entrar nas mágicas dimensões de uma lata de lixo. Mas ele não desaparece. Os homens que fecham os olhos para o sofrimento do planeta, dos animais racionais e irracionais. Continuam criando lixo, precificando o que é direito natural de todos, criando padrões de qualidade que tornam os alimentos cada vez mais caros inacessíveis. Delimitando territórios cuja área é bem superior ao que de fato, necessitam. Cortando árvores que abrigam milhares de animais para construir suas confortáveis residências para famílias de quatro ou cinco membros. Ora... Os mais agressivos leões conseguem viver e dormir lado a lado. Já o ser humano é tão repulsivo e hostil que precisa acomodar-se em cômodos separados por paredes.

Racionalizou que, embora os benefícios da ciência pareçam excelentes ao prolongar a existência do homem, tal avanço era equivocado e nocivo para todos os ecossistemas. Que o planeta não é capaz de suportar o ritmo de reprodução humano associado ao aumento da longevidade. Para tal, o ideal é que tivéssemos a expectativa de vida de um cão. No entanto, vivemos como tartarugas e nos reproduzimos como coelhos.

Ao perceber aquilo, passou a ver o que era real por trás de tantas ilusões. Despertara seu animal interior. Ouvira o chamado da selva. Tudo que parecia necessário e lógico caíra por terra naquela tarde cinza. E quando a noite veio, ela já era um animal completo. Não sucumbiria junto aos demais seres humanos. Não sufocaria o eco selvagem de seu peito. Tornou-se livre. E o único antídoto para aquilo era morte.


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Obs.: Desculpa, Jack London... Mas o único título que cabe a esse texto é esse.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Peixes

No sonho, eu estava em uma praia muito bonita. De olhos fechados, sentia as mãos do vento acariciar meu corpo bronzeado. Era gostoso estar ali sentada na areia, à meia sombra de uma choupana, à meia luz do Sol. Estava realmente muito agradável, e eu poderia ficar ali para sempre. Até que eu abri meus olhos e vi ao longe um peixe se debatendo na areia. Imediatamente levantei e corri para junto do animal, que agonizava em busca de água. Sem receio e ansiosa para ajudá-lo a voltar ao mar, tentei segurá-lo com as mãos. No entanto, ele pulou no segundo seguinte. Tentei novamente agarrá-lo, mas ele sempre pulava de minhas mãos, escorregadio. Comecei a me desesperar, pois aquela era uma luta contra o tempo, uma luta pela vida daquele animal burro que negava meu auxílio. Em vão. Acabei por perdê-lo. Não sei se morreu ou se voltou ao mar. Ele simplesmente sumiu em meio à areia dourada e eu não pude mais encontrá-lo. Frustrada e cabisbaixa, sai caminhando pela beira mar. A água cristalina daquela praia era até reconfortante... Caminhei, caminhei, até que vi uma forma escura e grande dentro da água. Era um bagre enorme, com aproximadamente um metro de comprimento e "bigodes" compridos. Ele estava na beira do mar, mas ainda submerso. As ondas não tinham poder sobre o seu corpo. Ele sequer balançava com as investidas da água. Mantinha-se firme, com o bater de suas nadadeiras. Ele me encarava, misterioso e eu lhe disse com os olhos que saísse dali antes que o pescassem. Mal terminei minha intenção de pensamento, surgiu um preto velho ao meu lado. Ele estava sem camisa, e com uma bermuda surrada. Sem nada dizer, ele entrou na água, tomou o grande peixe em seus braços e saiu. 


Não posso escrever sobre a revelação deste sonho. Tem coisas que temo escrever, pronunciar e até pensar. Mas preciso lembrar e me esforçar ainda mais pelas virtudes do amor incondicional, da humildade, sabedoria e paciência.

sábado, 7 de novembro de 2015

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo IV

No dia seguinte Valentina acordou pouco antes do almoço, febril e com os pés em frangalhos. No entanto, estava feliz. Aquelas feridas atestavam que a noite anterior fora real. Pela primeira vez depois da morte de Klaus, sentiu-se disposta a sair da clausura de seu quarto, caminhar, respirar ar puro, sentir um pouco de sol.

Foi ao jardim e deixou-se invadir pela energia restauradora do astro rei, recuperando o rubor que a tristeza roubara de sua face. Entrou em casa quase que dançando, para admiração de todos. Sentou-se à mesa e serviu-se de tudo. Provou do ensopado, do pernil, e serviu-se de duas generosas fatias do bolo.

Os pais observavam atônitos, e a irmã caçula até cantarolou:
- “A Tina está namorandoo, seus olhos estão brilhandoo...”
Valentina afagou as tranças da pequenina, e respondeu com um sorriso.
- Quanta alegria, minha filha!
- De fato, meu pai!
- Já era tempo de você se reerguer. Que bom que atentou para meus conselhos, querida filha  – Gabou-se a mãe, julgando-se responsável por aquela melhora.

- A que se deve tamanho entusiasmo? – questionou o pai.
- Enquanto houver esperança, serei feliz! A quem mais os pássaros cantam, senão àqueles que aguardam ansiosos a sucessão dos dias? Os pássaros cantam por mim!
- Vejo que estás novamente apaixonada! Quem será o rapaz? – perguntou a mãe, respondendo logo em seguida – Presumo que Arthur Gundbrandsen!
- O dono de meus sentimentos sempre foi, e sempre será o mesmo. – respondeu com tamanha convicção, que todos os olhos e ouvidos presentes atentaram para tal declaração.
- Pois não entendo! – retrucou a mãe, buscando respostas no olhar dos demais.
- Minha filha... Seu noivo está irreversivelmente morto. – disse o pai, como um professor que explica algo complexo. Tentou manter a calma, pois pela primeira vez temeu pela sanidade de Valentina.
- Você não pode passar o resto de sua vida de luto! Esqueça-o de uma vez por todas! – disse a mãe, sem qualquer paciência para uma nova discussão.
- Pois ouça bem, minha mãe. Não esquecerei meu grande amor em um mês, e nem pretendo fazê-lo enquanto viver! – retirou-se após essas palavras, deixando a mãe nervosíssima.

Apesar de nada poder roubar sua felicidade, sentiu-se incompreendida. E como poderiam entendê-la? Se soubessem de suas experiências da noite passada, tomariam-na por louca, ou até mesmo praticante de bruxaria. Seria excomungada. Teve febre novamente, provavelmente causada pela friagem da madrugada anterior.
Acordou para o jantar, mas comeu em seu quarto. Não se sentia motivada a discutir novamente com sua mãe. “Como são insensíveis...”, pensou, enquanto tomava um copo de leite morno. Mas não se ateve a pensar em seus pais. Sua angústia era outra, que comprimia seu peito e embrulhava o estômago. Precisava ver Klaus novamente. Seria muito injusto se não o pudesse. Não suportaria perdê-lo por uma segunda vez. A mãe veio medir-lhe a temperatura e desejar boa noite. Mal podia imaginar que, por baixo das cobertas, Valentina estava completamente vestida para sair.

Quando se sentiu segura de que todos dormiam, a moça forjou em sei leito uma silhueta com almofadas, de modo que se alguém checasse seu quarto, pensaria que ela estava dormindo. Tomou o caminho secreto, e logo estava fora de casa.

Aquela noite estava demasiadamente fria e o vento, cortante. Ainda que com os pés feridos, seus passos eram determinados. Nenhuma dor ou medo a deteria rumo aquele encontro. Mantinha o pensamento em seu amado e deixava que as mais cálidas lembranças aquecessem seu corpo.

No entanto, seus delírios de amor foram cedendo a uma estranha sensação. Era como se algo maligno estivesse à sua espreita, montando uma espécie de cerco que se estreitava cada vez mais. A presença opressora se esgueirava por entre as árvores secas, varrendo a folhagem morta do chão. O vento rodopiava, formando redemoinhos de poeira e folhas. Ou seria neblina?! Por trás daquele sinistro fenômeno, teve a impressão de ter visto olhos ardentes, que chispavam aqui e ali, onde a treva era mais densa.

Fez o sinal da cruz e apressou o passo. Quanto antes estivesse ao lado de Klaus, mais segura estaria. Seu amado não deixaria que nenhum mal a acometesse. Aquela pavorosa neblina se dissipou quando chegou ao cemitério. Sentiu-se aliviada ao refugiar-se por trás dos portões.

O cemitério estava completamente escuro, iluminado apenas pelas estrelas. Por sorte já conhecia bem o caminho para o túmulo de Klaus. Mas para seu desespero, não avistava em lugar nenhum a silhueta fluorescente de seu Fantasma.

Aflita, começou a chamar pelo nome do amado e rogar aos céus que não lhe negassem aquela graça.

Quando estava prestes a chorar, surpreendeu-se um com ruidoso estilhaçar. Virou-se rapidamente, com a mão sobre o peito. Lá estava Klaus, e à sua frente um arranjo que ele arremessara contra o chão.
- Valentina! Podes me ver?!
- Sim, meu amor, sim! – disse, e lançou-se nos braços do Fantasma. Mas acabou atravessando o corpo imaterial.
- Estou tentando atrair sua atenção desde que chegou ao cemitério. Foi mais fácil que da outra vez. Acho que estou aperfeiçoando minha técnica de comunicação com os vivos! – disse, satisfeito.
- Não pode imaginar a felicidade que isto me traz! Mas em breve não precisará mais de tantos esforços. – disse Valentina, perdida em incógnito vislumbre.

 - Por que diz isso? – perguntou, intrigado com aquela expressão no rosto da moça. Conduziu Valentina a um conjunto de grossas raízes que serviam perfeitamente de assento. Não podia toca-la, mas sua energia a envolvia de forma quase palpável. Ele sentou ao lado da moça e pôs as mãos sobre as dela.
- Certa vez ouvi dizer que os espíritos podem tocar uns aos outros. É verdade? – retomou aquele ar esfíngico.
- Sim. – fez uma pausa, desconfiado acerca do que viria adiante. – É verdade. Mas porque pergunta?
- Porque pretendo me tornar um fantasma, assim como você.
- Valentina, você...
- Sim. Morrerei. E assim finalmente me unirei a ti, como sempre sonhamos.
- Você não sabe o que está falando. Você tem muitos anos pela frente! É jovem, ainda pode ser feliz! – a figura de Klaus brilhou ainda mais,como uma estrela prestes a morrer.
- Mas minha felicidade está contigo! Sem ti, não poderei suportar sequer um ano. A morte é inevitável para mim. Ainda que eu viva um século, envelhecerei. E quando morrer, serei um fantasma decrépito, que assustará até a ti.
Klaus não riu daquelas palavras, apesar de terem um tanto de graça. Era tudo verdade. Valentina envelheceria, mas isso ele poderia suportar.  Mas era bem provável que fosse obrigada a se casar com outro homem, e sujeitar-se aos caprichos deste. A sociedade não era justa para as mulheres. Era normal que os maridos subjugassem as esposas. Além disso, homem algum amaria Valentina como ele. Mas era por amá-la tanto que jamais aceitaria seu sacrifício em nome daquele sentimento. Tratou logo de mudar de assunto. Não daria asas a tais pensamentos.

- Você fica mais bela a cada dia! Pergunto-me como isto é possível. Estou certo de que na terra não existe donzela alguma de semelhante beleza.

De fato, Valentina estava deslumbrante. Sedutora à sua maneira tímida. Trajava o belíssimo vestido creme que reservara para as núpcias. O decote quadrado valorizava o busto adornado por um camafeu dourado. A rica joia se perdia por entre os seios de nívea brancura. O corte justo realçava o ventre esguio, o volume dos quadris. Lamentava ter se mantido casta em nome das convenções religiosas e sociais, que de nada lhe serviam agora que seu amado estava morto. Naquele amor não haveria pecado. Tudo seria sacramento.

- Vesti-me especialmente para ti. Estou pronta para ser tua, Klaus.
- Mas como poderei, Valentina...?! – Klaus estremeceu.

Em silêncio, a moça começou a se despir lentamente de suas vestes e pudores. Desprendeu os feixes do vestido, revelando um ombro e depois o outro. Embora todo seu corpo tremesse de frio e sofreguidão, mantinha o olhar no amado. Klaus permanecia petrificado, como que sob o encanto de uma deusa mitológica. A aura do Fantasma tornou-se vermelha como o fogo e inflamava à medida que Valentina prosseguia com o lânguido rito. Ela se virou e deixou o vestido cair até a cintura, revelando a sedutora musculatura das costas e as estonteantes covinhas de Vênus. Quando Valentina virou-se de frente e exibiu o voluptuoso e perfeito par de seios, o Fantasma chegou ao ápice do desejo. Klaus tornou-se uma figura fulgurosa e incandescente que ameaçava consumir-se a qualquer momento, tamanha era a excitação que o acometia.

No entanto, em um lampejo de lucidez, o Fantasma recobrou o controle de si.
- Por favor, Valentina. Pare. Vista-se! Não podemos continuar com isso. Não é correto, nem possível! – soluçou Klaus, envergonhado de si, de sua incapacidade, de sua fraqueza.
- Não lute contra isso, meu amor! Sei que me desejas tanto quanto eu a ti! Por favor, Klaus, não adiemos mais esse momento, pois essa espera me adoece! Não vês que estou enferma de amor?!
- E tu não vês que estou morto? Que não posso sequer te tocar. Como poderia eu... Como poderia, Valentina?! – exclamou, desesperado.
- Não me importa que estejas morto e incorpóreo. O simples contato com tua energia pode me levar ao mais sublime gozo! Vem, meu amor! Invade meu corpo com tua cálida aura. Deposita em mim teu calor e vida, pois também morri naquele fatídico dia!  
- Não posso, Valentina! Não seria justo para contigo. Vista-se. Tem outros espíritos a espreita. Não quero que comprometa tua virtude.
- Pois a mim não importa. Não os vejo! Se for o caso, vamos ao teu túmulo!
- Pare! Não diga mais nada, pois não estás agindo com lucidez. O desejo quase me cegou, mas não deixarei que roube sua visão.
- Klaus... – Valentina emudeceu. Vestiu-se e nada pôde falar tamanha era sua frustração.
- Tu sabes o quanto te desejo. Essa tortura é ainda maior para mim do que para ti.

A moça deixou o cemitério aos prantos.
Decidiu de uma vez por todas: Naquela noite, morreria. 

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Valentina seguiu errante pela noite, profundamente abalada.

Seja pela vontade dos deuses, ou por uma inexplicável sorte, não sofreu nenhum dano, não foi roubada, ou abordada por qualquer malfeitor. Nem sequer recebeu um galanteio mais afoito dos bêbados que vagavam pelas ruas à noite. Na verdade, aquela cidade nunca fora tão silenciosa quanto aqueles tempos. Uma série de assassínios estava mantendo os nobres em suas casas ou em quartos de bordéis. E os mendigos pareciam ter sumido das calçadas onde costumeiramente dormiam.  

“Fantástico...” Praguejava Valentina, enquanto marchava lentamente para morte (ou para casa, o que viesse primeiro). “O terrível estripador não passa de uma fábula...”. Sentou-se no parapeito da ponte e continuou a refletir. “Tal rumor é deveras conveniente. As mulheres mantêm seus maridos em casa, e os jornais vendem mais exemplares. Afinal, todos se interessam por assassinos em série. Grande lorota.”

Lembrou-se, porém daquela experiência pavorosa que a fez fugir.  Deu-se conta que ainda guardava consigo um tanto daquela sensação, e perdeu o fôlego.  Olhou em volta e novamente se sentiu observada. Era como se a presença estivesse lá, sempre à espreita. De certo estava lá! Levantou-se do parapeito, temendo que uma mão terrível a puxasse para o rio. Sentia que não poderia dar as costas para nenhuma direção, pois aquele mal a vigiava por todos os lados. Pôs-se a caminhar apressadamente, girando a cada cinco passos. Aquela presença opressora a fez por um momento esquecer a futura “vida” ao lado de seu amado fantasma. Quem resiste ao terror da Morte? Que espírito sobremaneira elevado encararia sua algoz sem trincar os dentes? A Morte era terrível para todos. Ainda que trouxesse o alívio final para alguns, o encontro com a sinistra dama afetaria o mais forte ser vivente.

O instinto natural a fez correr, mas as vestes volumosas não lhe permitiram ir longe. Em menos de dez metros percorridos, Valentina foi ao chão. Ergueu-se um pouco com auxílio das mãos e virou o tronco para encarar os olhos cruéis de sua verdugo. 

Para a sua surpresa, não era a Morte e sim um elegante cavalheiro em trajes de gala. Ele tinha cabelos loiros caindo nos ombros e um rosto tão sombrio quanto deveria ter aquela a quem esperava.
- Pensava que eras mulher – balbuciou a moça.
- Por quem me tomas?! – respondeu, com certa frustração.
- Perdoe-me, senhor. É que eu esperava a Morte.
- Receio que não nos pareçamos.
- Estou certa que não – respondeu Valentina, enquanto apalpava as têmporas, toda confusa.

Ele lhe estendeu a mão, com um riso no canto da boca. Seus dentes reluziram de forma sinistra à meia luz. Apesar da impressão taciturna, era belo. Teria notado o charme do cavalheiro, não estivesse perdida de amor pelo Fantasma.

- Acho que não encontrarei quem procuro esta noite.

Ele riu.

- Quem sabe amanhã? – respondeu com certo humor negro, que causou arrepios na moça.

- É. Quem sabe.

Valentina limpou a terra das vestes e seguiu para casa apressadamente.
De alguma forma, sabia que não estava sozinha.

ETERNA MÁGOA – poema de Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se a...