terça-feira, 30 de maio de 2017

O Fantasma e o Vampiro - Capítulo V

Os dias que se seguiram foram rotineiros. Valentina ia ao cemitério, trocava juras de amor com o Fantasma. Permaneceu, inclusive, no propósito de morrer. Retornava para casa pelos mais sombrios e perigosos caminhos. A sensação de ser observada não cessou. Todavia, o máximo que lhe aconteceu foi ser atacada por dois ou três morcegos que tiravam rasantes próximos à ponte.
Cruzava com o cavalheiro frequentemente, e este insistia em levá-la até sua casa (contra sua vontade, obviamente). Descobriu que seu nome era Nikolai Slavomir, e que herdara um castelo pouco afastado da cidade. Fora isso, o cavalheiro nada mais revelou sobre si. No entanto, seu sotaque pesado e a pronúncia forte do “r” indicavam que ele era de terras bem distantes. Talvez de outro continente.
- Tens negócios por aqui? Ou estás empregando tuas noites a “seguir-me”? – Perguntou Valentina.
- Se continuo nesse tedioso vilarejo, é por ti. – Nikolai parou à frente da moça, interrompendo a caminhada - É chegada a hora de saberes que gosto de ti. Que te amo.
- Pois bem. Saibas que pretendo morrer. E isto, para juntar-me a meu amor, o ÚNICO de minha vida. – Valentina respondeu com veemência.
Os olhos azuis de Nikolai encheram-se de mágoa. Valentina apiedou-se e tentou amenizar suas últimas palavras:
- Não deverias desperdiçar teu tempo a tentar conquistar um coração selado, como o meu.
- Minha querida, tenho até o último de teus dias para tentar. E se isto não for suficiente, talvez mais: a eternidade.
- Agora blasfemas ao proferir tais crenças.
- Hahahaha! Donzelas de teu tipo me comprazem: destemidas, porém tolas.
- Isto foi rude! – exclamou, boquiaberta. Era a primeira vez que aquele cavalheiro faltava-lhe com o respeito. - Peço que não me acompanhes mais. Sei o caminho de casa, assim como posso perfeitamente me defender. – pegou uma pedra e ergueu-a de forma ameaçadora, sugerindo que a usaria caso necessário.
Nikolai sumiu como que por encanto, deixando apenas seu riso sinistro no breu.

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Na noite seguinte Valentina revelou a Klaus a existência de Nikolai. Relatou todo ocorrido e lamentou ter se deixado acompanhar por um desconhecido. E enquanto confessava, deu-se conta do quanto aquilo fora imprudente e inapropriado. O noivo pediu que não fosse mais ao cemitério, pelo menos por alguns dias. Em vão.
- Virei aqui todos os dias, até mudar-me definitivamente para teu túmulo.
- Ainda com essas idéias tolas?!
- Também me tomas por tola?! Trata-se de nosso amor! – profundamente magoada, saiu às pressas de sua presença, pisando sobre flores e sepulturas.
Para aumentar seu desgosto, mal saiu do cemitério e lá estava Nikolai, sentado em um banco com ar nobre e riso cínico. Valentina tentou ignorá-lo.
- Estás atrapalhando meu propósito... Enquanto estiver perto, a Morte não virá. - suspirou, ao perceber que Nikolai caminhava a seu lado.
- Estás enganada. Quando ela vier, não me colocarei entre vós. Não te livrarei. É uma promessa.
- Mas não desejo sua companhia. Isto já causou problemas demais entre meu noivo e eu.
- Diga a seu noivo que duelemos então. O vencedor ganhará teu coração.
Valentina começava a por em questão a maturidade daquele cavalheiro. Não se sentia mais propensa a levá-lo a sério, ou irritar-se com ele. Seria inútil.
- Meu noivo e você jamais poderiam duelar...
- Diga-me, Valentina. O que poderia fazer para ganhar teu amor?
- Não há nada que possa fazer para tal, senhor. Se quiseres ao menos minha estima, apenas deixe-me seguir meu caminho. A única companhia que desejo nesta triste noite, é a da Ceifadora das almas.
- Querida, és tão bela quanto sombria. – riu Nikolai. – Providenciarei este encontro.
Como de costume, Nikolai pareceu sumir por trás de sua capa negra. Valentina estremeceu.
A atmosfera estava úmida, cheia de chuva disfarçada. E seu corpo era como aquele ar: completamente feito de lágrimas contidas. Não demoraria até precipitar por inteiro, e escorrer pelo chão, até sumir... Ao chegar na ponte, sentou-se no parapeito e pôs-se a observar a agitação que o sereno provocava na superfície do lago. 
- Perdoem-me os céus por desejar que mãos de vento me lancem nas profundezas do córrego, e que nada além de minha alma torne a subir!
De súbito, foi surpreendida por um crescente vozerio. Era um grupo de rapazes, que se aproximava. Dentre os três beberrões, estava seu pretendente Arthur. O rapaz, terrivelmente debilitado pelo ópio, usava os ombros amigos como muletas.
- Valentina! És tu de verdade, ou um anjo mal disfarçado?
A moça sobressaltada escondeu o rosto entre os cabelos.
- Amigos, sois maus! Maldita seja a mistura que me serviram por álcool, pois agora até em delírio me vejo diante desta mulher! Não basta ter de me casar com ela? Vá embora Valentina! Em meu peito só há lugar para Barbara.
Aquilo a surpreendeu, pois imaginava que o filho do conde a amasse.
- Arthur, não é fantasma ou demônio. É sua noiva! – disse o mais sóbrio. – Mostre algum respeito!
- Tu sim, és mau, Arthur! És um ingrato! Quem, neste vilarejo miserável, não desejaria passar a noite sobre os seios de Valentina?!– disse, entre soluços o outro amigo, o mais bêbado. E depois explodiu em ruidoso riso.
- Perdoe-me Valentina! É que não a amo! Eu amo Bárbara! No entanto, casar-me-ei contigo, pois é meu dever... Tu sabes, somos ricos... – Arthur desvencilhou-se dos amigos e caiu sobre os braços de Valentina, que o amparou. O rapaz continuou, em tom de confidência – Pro inferno teu dinheiro e o meu... Mas teu noivo morreu... Não quero que Barbara seja morta também! Apesar de tudo, saibas que não te amo... Nunca te amarei... Desculpe!
Um terrível tremor se apoderou de Valentina. A moça quase tombou ao decifrar o significado daquelas palavras. O amigo mais sóbrio antecipou-se para apoiá-la, enquanto Arthur foi ao chão.
- O que ele está dizendo? – Valentina jogou-se sobre Arthur e segurou-lhe pelas golas. Os olhos da moça já emanavam em uma torrente de lágrimas.
- Peço que o perdoe, pois não sabe o que diz. – argumentou o amigo sóbrio.
Valentina livrou-se dos braços protetores e sacudiu Arthur para arrancar a verdade em meio aos soluços ébrios do rapaz.
- Se tu sabes algo sobre a morte de Klaus, conte-me agora! Exijo-te! Suplico-te!
- Solte-me! Se aquela a quem eu amo nos surpreender assim, estará tudo acabado... Tudo. – protestou Arthur, porém sem forças para livrar-se de Valentina.
- Se disseres o que sabes, juro que não mais me verás. Não precisarás casar comigo, pois não estarei mais aqui entre vós. Suplico-te que fale!
- Jure... – respondeu Arthur, e foi ao chão.
- Juro pela saúde de meu pai, pela vida de minha mãe!
- Terás de jurar por outros... Depois que eu falar, vai desejar aos teus pais algo mais terrível que a morte.
Aquelas palavras carregadas de álcool faziam sentido, por mais doloroso que fosse.
- Jure Valentina...
- Juro!
- Por quem tu juras?
- Por Deus, pelo rei, pelo eterno descanso de meu falecido noivo! Fale!
- Não o leve a sério. – interviu o amigo sóbrio. - Está bêbado, não vês? Delira.
- Eu não estou bêbado... Deixe-me falar! – empurrou o amigo, e continuou sem meias palavras - Seu noivo está morto porque nossos pais assim o quiseram.
- O que estás dizendo???
- Isto mesmo, Valentina! Foi uma emboscada... Mas não matarão Bárbara. Antes eu mato meu pai, o teu, o padre, até mesmo o diabo!

Valentina tombou para o lado, tão pavorosa era aquela informação. Ao levantar-se, nada mais pôde fazer, além de correr, correr, correr. Embrenhou-se na parte mais densa do bosque, de forma que não soube quando o dia raiou. Deitou-se catatônica entre as raízes de uma árvore centenária. A Mãe Natureza apiedou-se de seu choro, de forma que nem mesmo uma formiga a molestou.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Adélia

Conto dedicado à minha amiga Lane... :) Para nossa possível coletânea sobre mulheres... 

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ADÉLIA

O calor estava de matar naquela tarde abafada de outubro. A salinha cor de areia decorada com cactos artificiais era como a representação de um deserto. Adélia jazia imóvel no sofá, imersa em seu deserto pessoal... Na vastidão inóspita de sua psiquê... Numa espécie agonia solitária e quieta... A respiração escapava compassada pela moldura rubra de seus lábios. A pele formigava em contato com estofado barato e úmido de transpiração. O decote entreaberto mostrava uma quantidade generosa de suor represado entre os seios. O tempo, por sua vez, também parecia confinado entre os ponteiros do relógio de parede quebrado.

Por fim, chaves giraram as engrenagens da fechadura numa seqüência bem peculiar de duas voltas e meia, seguida de um solavanco. A porta se abriu e os sinos de alerta tilintaram. Victor entrou e deparou-se com a figura feminina em seu sofá. Adélia lembrava as musas febris que inspiraram poetas ao longo dos séculos. Mas a fragilidade de suas feições contrastava com as roupas negras e os impenetráveis óculos escuros.

- Ora, ora. A bela adormecida não vai acordar? – disse irônico, enquanto contornava a orla rendada do sutiã de Adélia com o dedo indicador.
- Não estou dormindo, Victor. – respondeu Adélia, sem se mover um milímetro sequer.
- Pois pra mim, pareceu que você estava dormindo. – queixou-se Victor, afastando-se subitamente. - Se fosse a polícia ou um dos Niners, estaríamos fodidos, porra. Você precisa manter os olhos abertos.
- Se fosse qualquer pessoa além de você, eu saberia. Meus ouvidos estavam bem atentos. Todos os meus sentidos são bem eficientes.
- Claro que são... Claro! – bufou, com uma expressão confusa de riso e raiva... Como foi o dia? 
- Poucos clientes. Livre-se dessa porcaria. Esse bagulho não presta, Victor. Só vendi pra viciada do primeiro andar. E tive que dar um desconto.
- Porra! – esbravejou Victor, jogando contra a parede um dos poucos vasinhos decorativos que restavam. - Não vamos conseguir pagar os Niners até o fim da semana!

Adélia se levantou como que na recuperação súbita de um coma. Enxugou o suor da testa e prendeu os longos cabelos negros em um coque alto.

- Se você não consertar esse ventilador, não sobreviveremos até lá de uma forma ou de outra.  – disse a moça, dirigindo-se à porta.
- Aonde você vai? – perguntou, com os braços abertos em fúria.
- Vou para casa. – respondeu Adélia, enquanto acendia um cigarro. – Não agüento mais esse calor. Já embalei tudo. Fiz seu serviço e o meu. Chame alguém pra ajudá-lo com as vendas... Se é que mais alguém vai querer essa porcaria batizada.

Victor colocou-se diante da porta, impedindo que a moça saísse.

- Pra casa?! Você nunca chamou aquela porcaria de casa. Mal pisa lá. Porque isso agora? Tá me enrolando, Adélia?! Tá querendo me fazer de otário?! – o rapaz vociferava bem próximo de seu rosto, impregnando tudo com o hálito impregnado de álcool, cocaína e cigarros.

Àquela altura, Adélia mal podia lembrar que um dia o amara. Que entregara a melhor parte de sua vida a um belo e amável Victor, e que em algum momento foram o mais feliz casal do mundo.

- Aqui está um inferno! Preciso sair deste buraco nem que seja por uma noite! – e sua voz era quase uma súplica.

A mão de Victor estalou ruidosamente na face direita da moça, que foi ao chão. De olhos enxutos, Adélia recolheu os óculos quebrados e se levantou em silêncio.

- Olha o que você me fez fazer! Olha só! – Victor iniciou uma marcha nervosa na sala, em um misto de arrependimento e raiva. – Porra... Por favor, me perdoe. Fique comigo, Adélia. Não sei mais o que fazer! Os Niners querem tirar minha pele. Sem você ao meu lado, eu não consigo. Por favor, fique!
Ele se reaproximou e prendeu o rosto da moça entre suas mãos e beijou seus lábios cerrados.
- Pare, Victor. Por favor, pare.

Adélia tentou se desvencilhar, mas as mãos do rapaz já percorriam o interior de sua calça jeans em apressada busca por resquícios de paixão. No minuto seguinte ele estava dentro dela, num coito incômodo, desajeitado, seco. Ela cedeu. Cansara de resistir.

Em tempos passados, ela teria chorado copiosamente pela agressão sofrida.

Um dia atrás, ela teria apontado uma arma para ele e diria que se a agredisse novamente, estouraria seus miolos.

Mas não naquela tarde quente e abafada de outubro.

Ao fim do ato, ela abotoou a calça e disse a Victor que ainda assim iria para casa.

- Que seja. Faça o que quiser. – respondeu sem olhá-la nos olhos. Victor sentia vergonha de si em seus breves momentos de lucidez.

Ao sair do prédio abafado, Adélia respirou aliviada. Os últimos raios de sol se retiravam e uma brisa gelada começava a soprar contra sua pele. Caminhou lentamente rumo à casa de seus pais, enquanto fumava seu último Marlboro. A fumaça saia de sua boca lentamente – não como o bafejar de um dragão furioso, mas como um sopro sutil a atravessar o diastema entre seus dentes.

Era agradável estar do lado de fora depois de semanas à fio trancafiada no apartamento velho e decadente que dividia com Victor. No início, ali fora uma espécie de refúgio. Uma miniatura de Éden, onde desfrutavam da presença sempre nua, um do outro. Eles se amaram ao extremo... A ponto de esquecer que o mundo era mundo. Entre tórridos beijos e profundos suspiros, uma dose ou outra, um quarto, uma aplicação. Entre conversas mais profundas que o oceano, um rasgo pra acelerar... Entre uma palavra torta, uma acusação, alguns miligramas disso ou daquilo para acalmar... Pra esquecer que o mundo continuava sendo mundo, com sua atraente porta escancarada para a perdição... Como uma boca gulosa que nunca se farta de tragar as almas dos que sonham...

- Que inferno! – Bufou, ao perceber que a sensação prazerosa que sentira há pouco estava aos poucos se esvaindo. A realidade a perseguia como um demônio opressor, que impunha as mãos sobre sua cabeça e turvava seus pensamentos. Lá estava ela, novamente perguntando a si mesma se de fato vivenciara as douradas lembranças as quais se apegava para continuar vivendo, ou se tudo não passara de uma ilusão... Um belo e saudoso simulacro criado por todas as substâncias que ingeriram juntos, e que, por algum motivo, não surtiam mais o efeito esperado. Não sabia mais o que pensar. As drogas eram melhores antigamente? Ou seu relacionamento estava na mais obscura fossa? Ou talvez sua vida inteira tenha se resumido a uma sequência de abismos, e abusos, derrotas e ilusões. Sentiu-se novamente a sufocar. As pernas falharam tombou de joelhos. Não havia lua, nem brisa, nem asfalto, casas, ou prédios, ou nada... Estava de volta ao seu deserto sem fim, mas não podia ver... Estava tão escuro... Sentia a língua enrolando no céu da boca e aos poucos ficava cada vez mais difícil de respirar.

Quando estava prestes a expirar, ouviu bem ao longe uma sequência de sons que era bem peculiar... Chaves girando numa fechadura, duas voltas e meia, seguida de um solavanco... Uma porta se abrindo e sinos tilintando... Como que há milhas de distância dali. Uma voz gritava seu nome e ela soube que era de Victor. Ela tentava respondê-lo e pedir-lhe ajuda, mas era em vão, pois seus gritos saiam como um engasgo feio e pastoso. Logo mais, sentiu seu corpo estremecer inteiro e em um relance pôde ver o rosto desesperado de seu amado bem próximo do seu. Ele parecia gritar a plenos pulmões, mas logo suas feições se tornaram um vulto...um borrão... e tudo escureceu novamente.

Quando o socorro chegou, deparou-se com duas emergências em vez de uma. Adélia jazia imóvel sobre o sofá de onde nunca saíra. No chão, o corpo de Victor ainda quente sobre uma poça do próprio sangue. Separaram-lhe as mãos e rabiscaram o laudo sem grande perícia: "overdose irreversível", "suicídio por arma de fogo". O relógio ainda marcava 11:11, e aqueles números finalmente fizeram sentido: era tarde demais.  




quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Discurso

Quando afirmas que pretendo ser um indivíduo deveras excelente, na verdade revelas tua opinião mais íntima sobre mim... Destilas em tua boca amarga a admiração secreta que te turva os pensamentos e impede de gozar teus dias. Se soubesses a soma dos minutos que gastei a refletir sobre teu proceder, entenderia que teus pensamentos não são recíprocos. Poupa teu fôlego. Recolhe tua língua. Vive e deixa-me viver.

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Obs.: Não é pra ninguém específico... É apenas um discurso que eu usaria se tivesse nascido há dois séculos e me importasse com o que alguém pensa de mim kkkk

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Os gigantes e as formigas

Às vezes analogias não passam de figuras de linguagem que utilizamos para consolidar argumentos  falaciosos. Mas às vezes elas são como perfeitos punhais que rasgam o véu de ignorância que cobre nossos olhos. Tenho uma analogia que, além fundamentada, ainda fez-me sentir um irremediável lixo. Ou pior: uma praga, que consome tudo que é vivo e que não tem tantas alternativas razoáveis para sua vil existência. Explicarei enquanto agonizo.

Em minhas andanças em busca de um pedaço de terra para chamar de lar, notei o quão rápido a civilização avançou por espaços antes "desabitados". Há 10 anos, eu morava na saída da cidade. Hoje não posso mais afirmar tal coisa, pois tudo cresceu muito para todas as direções. Onde havia matas, lagoas e outros ecossistemas intocados, agora há uma panificadora, uma academia, condomínios e casas, muitas casas. O que era estrada, agora é via de acesso para muitas moradas.
A impressão que dá é de que tem acontecido um grande progresso, e de que a cidade está crescendo. Muitos até se alegram com isso. Esquecem-se de que os lugares que parecem inabitados é o lar de muitos seres vivos (como nós). Ao avançarmos sobre essas terras, estamos matando e desabrigando pássaros, anfíbios, lagartos, soins, jacarés, capivaras e milhares de outras criaturas. Os que não morrem, migram para terras vizinhas que logo menos serão devastadas por nós, seres humanos, detentores de plenos poderes e donos do mundo.

A formiga ergue verdadeiras civilizações embaixo da terra. O passarinho abriga sua família em aconchegantes ninhos. Mas nós humanos somos como gigantes que sequer atentam para a existência dos outros seres e saímos pisoteando, derrubando, queimando e construindo sobre os lares dos outros seres. Como se tudo no planeta existisse em nossa função.

Às vezes imagino como seria se outros seres gigantes surgissem na terra e, para eles, nós fôssemos pequenos como formigas. Eles viriam com seus pés gigantes e pisariam nossas casas e famílias como se não existíssemos ou fossemos insignificantes demais para desviarem seu caminho. Eles nos desapropriariam e construiriam suas casas sobre as nossas como se tivéssemos menos direito de existir que eles.

Também imagino como seria se o governo simplesmente nos mandasse embora de "nossas terras" ou matasse quem resistisse em ficar. De certo haveria um grande reboliço no mundo. Porque sabemos falar. Porque sabemos criar e manusear armas. Mas se fossem gigantes, definitivamente não teríamos alternativas a não ser fugir até que a morte nos encontrasse. Nossos gritos de formiga não seriam ouvidos. Os titãs prevaleceriam. Ergueriam seus lares felizes sobre nosso sangue sem remorso algum. E a mídia titânica publicaria fotografias de suas famílias sorridentes e incentivaria outros gigantes a comprar mais terras que, na verdade, nunca pertenceram a alguém, mas sim a todos.
Não tem jeito. O mundo vai acabar. E nós humanos sofreremos por último. Só não sei se quem sofre por último, sofre mais.


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Sim, estou numa fase ativista e existencial.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Patético circo humano

A grama do jardim continua a crescer num ritmo invariavelmente rápido. As ervas daninhas insistem em brotar dos mais inóspitos orifícios. Enroscam-se, invadem. Como arabescos sem fim... A folhagem seca se precipita para dar lugar à nova fronde. A mim, resta observar da janela a desordem instaurada em meu quintal. Não posso interferir em tal ciclo. Que faria eu? Decretaria o fim da revolução natural? Deceparia os braços das árvores por tamanha anarquia? Asfixiaria a pobre grama sob duas ou mais camadas de concreto? Longe de mim! Seria mais fácil lidar com o pulsar de um coração delator escondido no assoalho que manter a Natureza refém em minhas terras. “Minhas terras”...

Debruço-me na janela, e inicio a minha mais corriqueira reflexão sobre a retrospectiva do ser humano na Terra. Sobre como viemos a existir ocasionalmente, e desde este fatídico momento, procriamos sem cessar. Nossa prole tornou-se incontável como as estrelas do céu... Como a areia do mar... Dominamos o fogo e criamos diversos outros instrumentos para subjugar o mundo. Como verdadeiros parasitas, seguimos esgotando todos os recursos ao nosso alcance. Delimitamos espaços com muros e fronteiras invisíveis. Propriedades, cidades, estados, países... Ferimos a selva e criamos estradas, como cupins e outras pragas fazem nas árvores até que apodreçam por completo. Povoamos a terra como um câncer se instala num organismo vivo. Nossas civilizações continuam se expandindo como uma metástase agressiva e fatal. A Terra vai ficando mais doente a cada dia, e às vezes eu choro por isso. Culpo a mim e meus semelhantes, embora saiba que muitos parasitas não tenham ciência de sua verdadeira condição.

Grito em silêncio, pois é crime incomodar os vizinhos. Agonizo, sem saber o que fazer ou a quem recorrer. Estamos todos no mesmo barco. Meus pais me domesticaram bem cedo, quando eu ainda era um filhotinho vulnerável e dependente. Ensinaram-me dezenas de regras de comportamento e assepsia. Proibiram-me de subir em árvores e fazer muitas coisas que os outros animais fazem. Disseram-me que eu era onívora, e que isso era natural do ser humano. Além disso, eu teria de lavar as mãos antes de comer. Perguntavam-me a todo tempo o que eu queria ser quando crescesse. Aparentemente eu não seria nada, até desempenhar uma função social. Então me matricularam em uma escola para auxiliar em meu processo de adestramento. Lá aprendi de tudo um pouco para que, ao longo de 18 anos eu descobrisse como poderia servir melhor a sociedade. No processo, ensinaram-me diversas operações aritméticas que ainda não tive oportunidade de usar. Decorei a fórmula de Bhaskara, o valor do Pi e uma infinidade de conceitos que, segundo os professores, eram de extrema importância. Infelizmente, não me ensinaram a criar um abrigo para me proteger do sol e da chuva. Não me deram qualquer instrução sobre como sobreviver na ausência dos recursos e artefatos humanos. Suspeito que haja uma grande conspiração da qual não posso me desvencilhar. Grito em silêncio. E simplesmente continuo a existir.

Desconfio que tudo que parece necessário, não passa de engodo e simulacro de satisfação. A mídia nos enfia goela abaixo que não basta sobreviver neste mundo. Ora! Além de ter nossas necessidades genuínas atendidas, é preciso ter uma sensação perene de bem estar e aconchego. Para suprir tal demanda, existe o complexo mercado e seus mil nichos para assistir cada particularidade humana. Por mais fútil que seja.  Porque não basta comer uma galinha ou um boi. É também preciso comer ovas do mais exótico peixe, que nada nas mais profundas águas do fim do mundo. Não basta que tenhamos unhas eficientes. Elas precisam ter cores diferentes pelo menos duas vezes ao mês. Porque simplesmente não basta termos corpos sadios. É preciso que eles tenham medidas que foram padronizadas por um desconhecido. É proibido ter cutículas, celulites, seios flácidos, estrias, cabelos brancos, joanetes, marcas de expressão, pelos no nariz e outras mil coisas que são naturais do ser humano. Temos que lutar pelo que não temos e contra o que temos. Tornamos-nos escravos miseráveis de tendências que só existem porque as aceitamos. E é patético como nos esforçamos para nos tornarmos engrenagens perfeitas de um sistema decadente, que mal se sustenta. É desesperador de tal forma que até as religiões falharam em tentar combater essas inquietações. O que resta é um profundo mal estar no interior de cada ser humano.

O homem conceituou como caos tudo aquilo que, em sua limitada percepção, encontra-se fora de ordem ou alheio ao seu controle. Mas desde o princípio o caos é mais irrefutável lei natural que rege o universo. Todos estamos sujeitos a essa lei. Mas preferimos resistir, ansiosos e infelizes. Maquiando o mundo, delimitando espaços, cortando a grama do jardim, aparando os pelos do corpo e aniquilando os insetos que invadem nossos castelos de ilusão. 

sábado, 5 de novembro de 2016

Revelações - Psilocybe Cubensis Ecuador

Reencontrei minha profunda essência, minha deusa interior. Comi da carne que nunca falha. Os sagrados cogumelos me mostraram o que precisava ser visto. E quando fechei meus olhos, tudo pude ver.

- Meu interior tinha a cor de tangerina. E sobre aquele impenetrável e sólido plano laranja se formavam mandalas e hieróglifos aparentemente egípcios. Não pude traduzi-los. Não possuo instrução para fazê-lo. Mas pude discernir em termos práticos o que a cor avermelhada deles significava para mim. O laranja, de certo representava minha vitalidade, energia telúrica e pureza espiritual. O vermelho, por sua vez, mostrou que há um emaranhado de confusão, impulsividade e ignorância, com o qual não tenho sabido lidar. Essa revelação me pareceu boa, pois é a confirmação de minhas auto-análises. É um alerta para que eu lute contra o que me corrompe;
- Vi preto, mas não em mim. Um terrível plano de fundo cinza cortado por raios negros. Prefiro não falar sobre isso;
- Mostraram-me um ser de língua falsa, que destila veneno e peçonha.
- Disseram-me que eu tinha lindos cabelos negros. Não era correto nem justo me maldizer.

Sinto-me grata pela carne que nunca falha.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Ensinamentos de Don Juan Matus

"Nunca me zango! Nenhum ser humano pode fazer alguma coisa tão importante que mereça isso. A gente se zanga com as pessoas quando acha que seus atos são importantes. Não sinto mais isso."

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"Você deve sempre manter em mente que um caminho não é mais do que um caminho; se achar que não deve segui-lo, não deve permanecer nele sob nenhuma circunstância. Para ter uma clareza dessas, é preciso levar uma vida disciplinada. Só então você saberá que qualquer caminho não passa de um caminho, e não há afronta, para si nem para os outros, em largá-lo se é isso o que seu coração lhe manda fazer. Mas sua decisão de continuar no caminho ou largá-lo deve ser isenta de medo e de ambição. Eu lhe aviso. Olhe bem para cada caminho, e com propósito. Experimente-o tantas vezes quanto achar necessário. Depois, pergunte-se, e só a si, uma coisa. Essa pergunta é uma que só os muito velhos fazem. Meu benfeitor certa vez me contou a respeito, quando eu era jovem, e meu sangue era forte demais para poder entendê-la. Agora eu a entendo. Dir-lhe-ei qual é: “esse caminho tem coração?” Todos os caminhos são os mesmos: não conduzem a lugar algum. São caminhos que atravessam o mato, ou que entram no mato. Em minha vida posso dizer que já passei por caminhos compridos, mas não estou em lugar algum. A pergunta de meu benfeitor agora tem um significado. Esse caminho tem um coração? Se tiver, o caminho é bom; se não tiver, não presta. Ambos os caminhos não conduzem a parte alguma; mas um tem coração e o outro não. Um torna a viagem alegre; enquanto você o seguir, será um com ele. O outro o fará maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece."

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"E assim ele se deparou com o primeiro de seus inimigos naturais: o Medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando, à espreita. E se o homem, apavorado com sua presença, foge, seu inimigo terá posto um fim à sua busca.
- O que acontece com o homem se ele fugir com medo?
- Nada lhe acontece, a não ser que nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de
conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo; de
qualquer forma, será um homem vencido. Seu primeiro inimigo terá posto um fim a seus desejos.
- E o que pode ele fazer para vencer o medo?
- A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, e no entanto não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito torna-se mais forte.
(...)
- Isso acontece de uma vez, Dom Juan, ou aos poucos?
- Acontece aos poucos e no entanto o medo é vencido da repente e depressa.
- Mas o homem não terá medo outra vez, se lhe acontecer alguma coisa nova?
- Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque em vez do medo ele adquiriu a clareza de espírito que apaga o medo. Então, o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los. Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta.
E assim ele encontra seu segundo inimigo: a Clareza! Essa clareza de espírito, que é tão difícil de obter, elimina o medo, mas também cega. Obriga o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso porque é claro e não pára diante de nada porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz-de-conta, sucumbiu a seu segundo inimigo e tateará com a aprendizagem.Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando
devia precipitar-se. E tateará com a aprendizagem até acabar incapaz de aprender mais qualquer coisa.
- O que acontece com um homem que é derrotado assim, Dom Juan? Ele morre por isso?
- Não, não morre. Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disso, o homem pode tornar-se um guerreiro valente, ou um palhaço. No entanto, a clareza, pela qual ele pagou tão caro, nunca mais se transformará de novo em trevas ou medo. Será claro enquanto viver, mas não aprenderá nem desejará nada.
- Mas o que tem de fazer para não ser vencido?
- Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá um momento em que ele compreenderá que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim ele terá vencido seu segundo inimigo, e estará numa posição em que nada mais poderá prejudicá-lo. Isso não será um engano. Não será um ponto diante da vista. Será o verdadeiro poder."

ETERNA MÁGOA – poema de Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se a...